Como manter a organização mesmo sendo um bagunceiro incorrigível?

Tempo de leitura: 9 minutos

Muitas pessoas simplesmente não conseguem manter a organização em casa ou no local de trabalho. Por mais que se esforcem, deixam um rastro de desordem e caos. Se moram sozinhas, menos mal. Se dividem o teto com alguém, existe um potencial problema de relacionamento. No trabalho, nem se fala. Podem perder muitas oportunidades porque têm uma mesa parecendo a praia da cena inicial do filme O Resgate do Soldado Ryan.

Elas até querem mudar o quadro, mas vivem tanto tempo no “mundo da lua”, que acham que não têm mais jeito. Nasceram assim e vão morrer assim. Caso você se enquadre neste perfil, não se preocupe. Com algumas técnicas e boa vontade, é possível controlar a bagunça.

Sou uma pessoa que se pode definir como obcecada por organização, tanto no trabalho quanto na vida pessoal. Essa característica é tão marcante em minha personalidade, que já fui conhecido como “o chato”, considerando a ênfase que dou ao assunto. Para mim, é de lei que tudo esteja em seus devidos lugares, bem arrumado e limpo.

Na verdade, sou assim desde criança, quando organizava meus gibis em ordem numérica. Mesmo na adolescência, quando fui adepto ao punk rock e usava roupas rasgadas, cabelo moicano e alfinete no nariz, a bagunça e o desleixo natural de um autêntico representante do movimento, tinha que ter uma dose (inadequada, no caso) de organização. Foi quando passei a ser chamado de punk de boutique.

Recentemente, ao atualizar meu perfil de rede profissional LinkedIn, percebi que o 5S* é a primeira colocada na lista de competências recomendadas pelas pessoas que já conviveram comigo, especialmente no trabalho. Está na frente, inclusive, de Liderança de equipes, a qual me considero acima da média (modéstia à parte). Trata-se de uma prova cabal e social de que a organização é uma das minhas principais características.

*a saber: 5S é uma filosofia japonesa (sempre eles) que adota cinco comportamentos básicos para excelência de qualquer atividade na vida. Seiri (senso de utilização), Seiton (senso de ordenação), Seisou (senso de limpeza), Seiketsu (senso de padronização) Shitsuke (senso de autodisciplina).

Até um certo ponto de minha existência, eu imaginava que ser organizado era apenas um capricho de um sujeito naturalmente zeloso, que se intensificava e aprimorava conforme cresciam as coleções de discos, revistas e livros. Mas não era algo que me preocupava. Ter as coisas em ordem sempre foi um prazer.

No entanto, foi em minha carreira na Industria, que descobri a importância e a necessidade desta (que eu considero) virtude.

Para quem não conhece a realidade de uma fábrica, independente de segmento, produção parada por algum problema, significa dinheiro perdido, risco de cancelamento de pedido e gerente enfartando.

Na época em que trabalhei como Técnico de Processo e atuava no reparo dos equipamentos e ajustes de programas em linhas de produção, uma coisa me incomodava barbaramente.

Quando a produção parava devido falha de maquinário, considerando trinta minutos de atendimento para restabelecer o processo, mais da metade deste tempo era reservado para procurar um manual, que ninguém sabia onde estava. A ação propriamente dita, não demorava cinco minutos, com mais cinco para testar eficácia. Uma total falta de eficiência.

Por conta de situações semelhantes, priorizei o fator Organização quando me tornei gestor do grupo. Com o envolvimento da equipe, todos os manuais, ferramentas e outros itens importantes, foram arrumados e posicionados em pontos estratégicos, onde se podia ter um rápido acesso. Com essa simples ação, os índices relacionados a parada de processo despencaram mais que a popularidade do PT.

Fora do mundo fabril, a coisa não é muito diferente.

A organização é necessária mesmo nas situações mais banais de nosso cotidiano. Muitas vezes, só percebemos a importância quando alguma coisa séria acontece conosco ou com alguém que amamos.

Por exemplo: sujeito chega em casa, depois de um dia exaustivo, e deposita (para não usar a palavra “joga”) a chave do carro em qualquer lugar no caminho entre a porta de entrada e o chuveiro. Ele quer tomar um banho, ligar a TV e esquecer o mundo lá fora.

No dia seguinte, quando está bem atrasado para o serviço, porque preferiu não ouvir o despertador, já que estava sonhando com a Megan Fox, atriz do filme que ficou assistindo até de madrugada, procura desesperadamente a chave e não encontra.

Cerca de uma hora depois, quando o seu chefe já foi avisado sobre o atraso (e ele não ficou feliz), a bendita é encontrada no depósito de ovos, na geladeira. Em um misto de surpresa e incredulidade, o cara se pergunta: como essa m… veio parar aqui?

Ele faz uma breve regressão e lembra que assim que chegou em casa na noite passada, abriu a geladeira para tirar uma lata de refrigerante e, neste momento, estava com a chave na mão. Bingo!

Mas, e se em vez de apenas o atraso no serviço, a indisponibilidade da chave do carro custasse o atendimento imediato ao seu filho, que sofreu um acidente doméstico?

Quase tudo na vida tem relação com os hábitos que desenvolvemos. Na maioria das vezes, as pessoas querem um determinado resultado, mas cultivam comportamentos inadequados para o objetivo que almejam.

No caso do assunto tratado neste texto, os principais hábitos que devem ser cultivados para adquirir um padrão de comportamento que o leve à organização, são foco e concentração (ou atenção).

Quando falta foco, tendemos a fazer uma coisa, pensando em outra. O aqui e agora, sempre é sufocado pelo antes e o depois. Por isso, não prestamos muita atenção no que estamos fazendo no momento e até esquecemos o que comemos no almoço (se lembrarmos que almoçamos).

Para iniciar o desenvolvimento de atributos como o foco e atenção, existe uma prática simples, que pode surpreender até o mais bagunceiro dos mortais.

Organização pode salvar sua vida
A organização não é apenas um capricho. Pode, inclusive, salvar a sua vida.

 Vamos tomar o exemplo do sujeito que perdeu a chave do carro na geladeira.

Como ele poderia evitar essa situação e tantas outras similares?

Um método muito eficiente é conhecido como check list (lista de verificações), ou apenas sistema de lembretes. Trata-se de uma metodologia fácil de aplicar, que além de ajudar a evitar que algo deixe ser feito, ainda treina a mente para adquirir um hábito que deseja.

Como funciona?

1 – Em uma folha de papel ou editor de texto, enumere cinco pontos que você deseja melhorar no que cabe a organização.

2 – Escreva o hábito que gostaria de adquirir, ao lado de cada ponto relacionado.

Exemplos:

  • Chave do carro e da casa – sempre pendurar no gancho próximo da porta
  • Lápis, Marca Texto e Canetas – depositar na caixa, dentro da primeira gaveta da mesa
  • Cartões (crédito, débito, saúde, seguro, etc.) organizados no porta-cartões ou compartimentos da carteira.
  • Utensílios de suporte a eletrônicos (carregador de telefone, pen drive, cabos, fones de ouvido) depositados em uma bolsa estilo nécessaire.

3 – Imprima ou tire cópia desta lista e deixe em pontos que você considera estratégicos: nos espelhos (todos que você usa), na parede em frente ao vaso sanitário, na porta da geladeira, como marcador do livro que você está lendo, etc. Leia os itens todas as vezes que deparar com a lista.

4-  Antes de dormir (para itens domésticos) ou ao término do expediente (para os itens do trabalho), repasse a lista e analise se algo foi esquecido durante o dia. Se sim, não deixe o local ou se entregue aos braços de Morpheus (o deus dos sonhos) antes de fechar a pendência.

Parece chato? Talvez. Por isso, comece com poucos itens. De grão em grão, a galinha enche o papo.

Com um pouquinho de esforço, você vai perceber que ao longo de um mês (ou até menos), a lista não será mais necessária. Seu cérebro já criou conexões neurais que consolidaram os novos hábitos. Sem perceber, sua mente se adequou para lhe tornar uma pessoa organizada nas questões que você almejava. Isso vai lhe estimular para usar a estratégia para outros objetivos.

Outra dica importante: lute contra a tentação de preencher lugares vazios com coisas diversas. Conheci um sujeito que tinha uma mesa tão bagunçada, mas tão bagunçada, que certa vez, sua sobrinha mais nova foi visitá-lo depois da escola e, enquanto ele pegava um café, ela se perdeu em meio às papeladas e tralhas depositadas no local. Foi encontrada uma semana depois, desnutrida e desidratada.

A solução para o problema, ele achou que resolveria adquirindo uma nova mesa. Dias depois, ele já era um frustrado dono de duas mesas que pareciam o sambódromo carioca na quarta-feira de cinzas. Sua sobrinha nunca mais o visitou.

Mente vazia, oficina do diabo. Espaço vazio, depósito de satanás.

Parece um paradoxo, mas é fato que se ganha tempo quando “se gasta tempo” investindo na organização. E esse tempo que “se gasta” pode ser meros segundos, suficientes para acostumar o cérebro a pensar: onde é o local mais adequado para guardar isso?

Em pouco tempo, você vai se surpreender ao visitar a casa de um amigo ou uma empresa, e proferir (mentalmente) a frase mais usada por todos aqueles que já estão devidamente treinados para detectar ambientes onde a organização não é prioridade: mas que bagunça!

Os olhos enxergam o que estão preparados para ver.

Só não deixe dominar pelo espírito de Monica Geller, personagem do seriado Friends, que enlouquecia quando algo estava fora do lugar. Apenas respire fundo e siga seu caminho.

Quer mais algumas dicas sensacionais? Dá uma olhada no artigo Como Acabar Com a Bagunçaescrito pela Thais Godinho, no blog Vida Organizada. Vale tanto para a casa quanto para o trabalho.

Lembre-se: Concentre-se no hoje (agora). Só existem dois dias que não se pode fazer absolutamente nada: um se chama ontem e outro se chama amanhã.

 

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