Por que a afirmação de que os opostos se atraem é uma grande mentira?

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Você já deve ter ouvido muito por aí, o conceito que os opostos se atraem, usado bastante como filosofia barata, para justificar a união de pessoas que, aparentemente, não têm nada (ou quase nada) em comum. No entanto, contrariando uma das leis da física (Coulomb, para ser mais exato), que comprova cientificamente a atração de partículas eletromagnéticas de cargas opostas, a realidade é bem diferente quando se trata de relacionamentos, sejam amorosos, de amizade e profissionais.

Isso significa dizer que é impossível mantermos uma boa relação com pessoas que tenham pouca (ou até nenhuma) afinidade conosco? Eu lhe digo que é tão possível, que ao longo do tempo surgiram vários exemplos que fortaleceram a tal máxima citada no parágrafo acima. Fortaleceram, mas não a tornaram verdadeira. Não somos atraídos pelas diferenças, mas podemos manter uma excelente relação através da harmonia. E como podemos cultivar ou criar essa maravilhosa condição?

Segundo Anthony Robbins, em seu livro Poder Sem Limites, a harmonia é a habilidade de entrar no mundo de alguém, a essência da comunicação bem-sucedida, o instrumento final para produzir resultados com outras pessoas, uma das principais maneiras de liberar os recursos poderosos que existem em cada um de nós.

Se você parar para pensar, vai perceber que nossa vida é uma somatória de sonhos, projetos, resultados, conquistas e derrotas que, de uma forma ou de outra, tem sempre alguém envolvido nos ajudando. E também nos atrapalhando, nem sempre de forma pensada ou planejada, mas certamente determinada pela ausência da harmonia e afinidades entre as partes.

A verdade é que somos atraídos – conscientes ou não – por pessoas que pensam como nós. Dificilmente você vai conhecer alguém que, deliberadamente, procure um (a) parceiro (a) raciocinando algo do tipo: espero encontrar uma pessoa que pense completamente diferente de mim, não concorde com os meus valores, não aceite minhas opiniões e não goste de nada que eu goste.

Para haver atração, deve existir alguma afinidade
Para haver atração, deve existir alguma afinidade

Tente lembrar de como conheceu e firmou laços com alguns de seus melhores amigos. Com certeza, não foi porque eles eram diferentes de você. Apesar de cada pessoa ser única, existem características que nos aproximam uma das outras. O vínculo se cria quando temos algo em comum.

Lembro de quando passeava pelas ruas do centro de São Paulo, nos anos 80. Nesta época, eu fazia o estilo heavy metal, exibindo uma bela cabeleira caída nos ombros, uma expressão de poucos amigos e sempre trajando camiseta de banda (bom, no caso das camisetas, uso até hoje). Dependendo do grupo musical ostentado em meu peito, eventualmente se aproximava alguém para “fazer contato”.

– Aê cara. Iron Maiden. Legal, heim?

– Podes crer, bicho. Demais.

– Da hora.

– É isso aí, meu.

– Falou.

– Falooouuu!

 

Nesta conversa quase monossilábica, se formava um vínculo instantâneo. Alguns destes falastrões são meus amigos até hoje. Na verdade, dentro do universo musical, especialmente do rock, as amizades são muito duradouras, unidas e reforçadas pelo amor a um estilo de música.

Já os relacionamentos amorosos, é fato que muitos nascem por motivos absolutamente irrelevantes. Basicamente, pela atração física. Este é o primeiro contato (visual). As pessoas se aproximam atraídas pela aparência. Um belo conjunto de músculos, um traseiro protuberante ou um rosto bonito. A relação se inicia, considerando que o atrativo físico do outro é uma sustentação sólida e duradoura. Não demora muito, e as diferenças, antes toleráveis, passam a ser insuportáveis.

Você consegue segurar um peso de meio quilo, com o braço estendido? É leve, não é mesmo? Agora experimente ficar duas horas, na mesma posição, segurando o mesmo peso. Seria correto dizer que aquele meio quilo se transformou em uma tonelada, impossível de segurar? Pois bem, é assim que funciona a nossa tolerância em relação às incompatibilidades de nossas relações. Com o tempo, aquela característica (comportamento) que era tolerável ou até engraçadinha no início do relacionamento, passa a ser insuportável. E a justificativa mais usada nestes casos, é a clássica frase: você já me conheceu assim. Pura verdade.

As conveniências também são pontos de partida para iniciar parcerias pessoais ou profissionais, mas não são suficientes para mantê-las. Você tem um projeto bem estruturado, mas não tem dinheiro. Se associa a alguém que possua o capital e acredite no negócio. Parece perfeito. Mas o que fazer se, com o andar da carruagem, você perceba que o seu sócio não considera os princípios da honestidade e justiça como relevantes, ao contrário de você, honesto e justo até a alma? Não deve durar muito tempo, a não ser que alguém abra mão de seus ideais.

Apenas ter algo em comum é suficiente? A resposta é não. Como já foi dito anteriormente, cada pessoa é única e tem sua maneira de agir, de pensar, de se relacionar. É muito comum a separação de parceiros ou casais que se uniram pela sintonia de afinidades, mas que não suportaram o peso das diferenças.

E onde entra a harmonia nisso tudo?

A harmonia é a chave de tudo. Ao desenvolvê-la, podemos manter qualquer relacionamento, mesmo àqueles em que as afinidades não são tão evidentes.

Vamos usar a história do Alberto, no primeiro dia no seu novo emprego. Ele está entusiasmado por ter conseguido a vaga em meio a um acirrado processo seletivo. Nas dinâmicas em que foi submetido, para comprovar se estava apto para o cargo, teve que bater escanteio, correr plantando bananeira para fazer o gol de bicicleta, enquanto assoviada Tico Tico no Fubá em ritmo de tango, sem errar uma nota. Não foi fácil.

Seu novo chefe faz um tour para lhe apresentar a empresa. Ele ficou maravilhado. Sempre quis trabalhar naquele lugar. Não muito tempo atrás, parava seu carro na frente do prédio e ficava contemplando a fachada, sob os olhares desconfiados dos guardas da portaria.

-Ô rapaz, tu taí admirado ou tá querendo roubar?

Conhecer os novos colegas é um deleite. Ao ser apresentado àquelas pessoas, sorridentes e gentis, todas lhe desejando boa sorte ou saudando com um recompensador bem-vindo, as lágrimas quase caem dos seus olhos. Até o momento em que ele conhece o Gomes, um sujeito mau encarado, rabugento, reclamão e quase inacessível.

-Alberto, esse aqui é o Gomes.

-Bom dia, seu Gomes! Muito prazer – ele o cumprimenta com seu melhor sorriso, estendendo a mão.

– Bom dia só se for pra você, seu moleque. Estou ferrado desde a semana passada com essa porcaria de relatório e tu ainda vem dizer que o dia está bom? – retrucou o ogro, ignorando braço estendido de Alberto, que inexplicavelmente, ficou nesta posição por mais de um minuto.

-Não liga não, Alberto. Gomes é gente boa. Só é um pouquinho estressado. – disse o chefe, meio sem graça.

Enquanto o chefe tentava justificar a falta de tato do seu funcionário, Gomes resmungou alguma coisa que soou como tomate cru e filho da luta. Talvez ele fosse um simpatizante da revolução cubana que aprecia tomates in natura, pensou o assustado novato. O fato é que aquele cara era exatamente o oposto dos seus valores de camaradagem, boa vontade, otimismo e motivação. Apesar de trabalharem na mesma empresa, imediatamente Alberto rezou para não cruzar com ele muitas vezes.

-Bom, então é isso, Alberto. O Gomes vai ser o seu parceiro de setor. Grude nele e aprenda o serviço. Tenho certeza que, em breve, você vai dominar todas as técnicas. Boas sorte! – disse o chefe do departamento, olhando o relógio, engatando uma ré e sumindo de vista em segundos.

Neste momento, enquanto Gomes olhava pelo canto do olho, com uma expressão que parecia ódio, Alberto sentiu que se não fosse ao banheiro imediatamente, iria molhar a calça novinha em folha, comprada à prestação na lojinha da fofoqueira Dona Leonor, sua vizinha do andar de baixo.

-Seu Gomes, onde é o banheiro? – perguntou timidamente, com um fiozinho de voz.

– O que está escrito aqui, rapaz? – questionou o irritado Gomes, levantando abruptamente e mostrando o crachá.

– José Gomes Diabolicús Satanécio Luciférico de Souza. Bonito nome, senhor.

– Não, lesma tetraplégica. Aqui embaixo! – indicou o ponto, imitando a voz de alguém com uma suposta deficiência mental.

-Encarregado de materiais.

– Sério? Não está escrito Guia Turístico ou Encarregado de Informações? – usando todo o seu sarcasmo.

-Não senhor – respondeu Alberto, com a voz trêmula.

-Então, meu amiguinho, se vira! Esbravejou o enfezado colega de trabalho, soltando gotas de saliva que caiam diretamente no rosto do imóvel e pálido Alberto, e se voltando para o relatório que o estava tirando do sério.

Enquanto, desesperadamente, procurava o banheiro, o antes entusiasmado novo funcionário, pensava na sua mãe (queria correr para debaixo da saia dela) e como iria esconder os olhos marejados dos novos colegas, enquanto sentia o líquido quente e mau cheiroso escorrendo pelas pernas.

Situação difícil, não é mesmo? O que fazer em casos similares? Não se trata de um relacionamento amoroso, em que você pode sentar e discutir relação. Trata-se do local onde, muitas vezes, temos que lidar com pessoas que apenas não gostamos, detestamos, mas não desejamos que morram, ou odiamos, a ponto de imaginá-las sendo esquartejadas vivas, com requintes de crueldade medieval.

A programação neurolinguística (PNL) ensina que podemos cultivar a harmonia, mesmo com pessoas que (aparentemente) não tenham nenhuma afinidade conosco. É possível descobrir ou criar pontos em comum e, com isso, desenvolver uma relação harmoniosa.  E como se faz isso?

Bom, existem várias técnicas, mas uma das mais eficazes é o espelhamento, no qual criamos afinidades por meio de situações em comum. Vamos destacar três, com respectivos exemplos, que podem ajudar pessoas em situação perecida com a do pobre Alberto.

1 – Espelhar interesses – apreciar o mesmo estilo musical, gostar do mesmo tipo de comida, realizar atividades semelhantes nos dias folga.

– O senhor gosta de música, seu Gomes?

– Só de cantos gregorianos em latim. E tu, que porcaria tu ouve?

– Não gosto de música, não senhor. – melhor negar seu gosto musical do que confessar que adora sertanejo universitário.

 

2- Espelhar associações – amigos ou conhecidos em comum.

–  Seu Gomes, o senhor conheceu o Ribamar, que trabalhou aqui um tempão?

– Conheci aquele pilantra. Um dos maiores F.D.Ps que eu tive o desprazer de encontrar na vida. Incompetente e enrolão.  Tu conhece ele?

– Mais ou menos. Só de vista! – achando prudente não revelar que o tal Ribamar é seu cunhado, padrinho do seu filho e que o visita todos os fins de semana, para tomar cerveja e cantar no karaokê da sala, sucessos do sertanejo universitário.

 

3 – Espelhar crenças – causas sociais, religião, valores.

– Seu Gomes, aquilo no canto da mesa é uma Bíblia?

– Tá maluco, rapá? É um livro com as biografias de Hitler, Charles Manson e Mussolini. Por quê? Tu é religioso?

– Dou umas rezadinhas de vez em quando, mas só quando o meu time joga! – desconsiderando os três encontros semanais de estudo bíblico, a novena às terças, a reunião mediúnica às quintas, o despacho na tenda do Pai Barnabé às sextas, o culto presbiteriano aos sábado e as missas católicas aos domingos (na dúvida de qual a religião certa, era melhor ter um pé em cada uma).

São exemplos das formas mais comuns, que evidenciam vínculos responsáveis pelo início de uma relação. A troca de informações recíprocas é muito eficiente, na maioria dos casos. E quando nada disso funciona? Neste caso, existe uma outra técnica, pouco usada de forma consciente, mas muito poderosa.

Quando conversamos uns com os outros, usamos palavras, certo? Mas não só isso. Também usamos outras formas de comunicação. Tony Robbins menciona uma pesquisa que comprovou que apenas sete por cento do que é comunicado entre as pessoas, é transmitido por meio das palavras. Trinta e oito por cento é por meio do tom de voz. E cinquenta e cinco por cento (o maior pedaço da pizza) resulta da fisiologia e linguagem do corpo. Basicamente, a expressão facial, os tipos dos movimentos e os gestos, estão dizendo muito mais que palavras.

Isso é muito fácil de entender. Analise os “bom dias” que você recebe pela manhã. Compare a maneira que lhe são entregues. Tem para todos os gostos: o bom dia desinteressado, o automático, o entusiasmado, o ocupado, o interesseiro, dentre outros. Todos dizendo exatamente as mesmas palavras.

Nota: isso não vale para o Diretor da empresa. Para ele, a maioria estampa um sorriso aberto e dá o melhor “bom dia” de todos os tempos, embora formule, mentalmente, adjetivos nada lisonjeiros em relação ao chefe maior.

Portanto, as palavras nem sempre são suficientes. A maneira como são entregues conta muito mais. Se precisamos criar harmonia com alguém, podemos espelhar a fisiologia. São muitas as possibilidades de espelhamento, mas para este texto não ficar muito longo, sugiro começar apenas com o tom e volume da voz.

Tente encontrar o andamento e a frequência semelhante do seu interlocutor. Isso gera, no subconsciente, uma informação que diz: essa pessoa parece comigo, logo, ela é legal. Claro que não será necessário manter esse espelhamento por muito tempo, uma vez que a primeira barreira já foi quebrada e novas formas de harmonia serão criadas, com o desenvolvimento da relação.

Tudo é uma questão de prática, como quase tudo na vida. Preste atenção na reação que seu estilo de falar causa nos outros, e vice-versa. Com o espelhamento, é perfeitamente possível gerar harmonia entre o fulano que conversa no estilo narrador-de-corridas-de-cavalo-que-vai-tirar-o-pai-da-forca, gosta de black metal norueguês, detesta luz do sol e é chegado a um rodízio de churrasco, com o cicrano que fala pausadamente, numa baixa frequência de voz e longas pausas, ouve new age, adora praia e é vegano. Mas diferentes, impossível.

No caso do Alberto, ele conseguiu se entender com o Gomes, usando (inconscientemente) essa técnica. Não demorou muito para eles ficarem amigos e até frequentarem a casa um do outro. A história é verdadeira, mas os nomes são fictícios. Entretanto, posso revelar a identidade de, pelo menos, um deles. O insuportável Gomes é o autor deste texto. Quem diria, hem?

 

 

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2 Comentários


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