Como desenvolver o hábito da gratidão com apenas uma pergunta

Tempo de leitura: 6 minutos

“Todo o nosso descontentamento por aquilo que nos falta procede da nossa falta de gratidão por aquilo que temos”. Daniel Defoe (escritor inglês, do século XVII, famoso pelo livro Robinson Crusoé)

Você acha que a gratidão é um hábito que deva ser cultivado para se alcançar equilíbrio físico e mental?

Pode parecer uma teoria insana, mas o ser humano tem a tendência de não ser grato pelo que possui, sejam bens materiais, saúde, relacionamentos, etc. Geralmente, ele concentra sua atenção justamente naquilo que não tem.

E desta filosofia de vida, valorizada pelos que consideram a ambição uma virtude obrigatória em nossa sociedade, nascem sentimentos como frustração, intolerância, medo, indiferença, angústia, depressão, dentre outros.

Você conhece alguém assim? Ou, por acaso, você é assim?

Um dos meus passatempos preferidos (quando me permito ter tempo para passar), é assistir séries de TV. Tenho incontáveis caixas (boxes) de séries que admiro. Algumas delas, utilizo como estudos de caso e não apenas como diversão. São – principalmente – as séries que se passam em ambientes carcerários. Minhas preferidas são Oz e Orange Is The New Black.

Fico fascinado não apenas pelo roteiro e ação, mas pela maneira de pensar e agir dos personagens. Além disso, um ponto é bem claro no desenrolar dos episódios: nada é tão ruim que não possa ser piorado.

Um exemplo muito rápido: em OITNB, série baseada na experiência da americana Piper Kerman, a personagem principal deixou uma vida confortável de classe média para ingressar em uma prisão feminina, devido um delito que cometeu no passado.

Nos primeiros dias, as lamentações eram constantes, por conta de seu infortúnio, especialmente quando se lembrava da boa vida que levava há tão pouco tempo.

Em certo momento, querendo dar uma de espertinha e se enturmar, reclamou fortemente da comida, justamente para Chefe de cozinha (sem saber com quem estava falando). De acordo com as leis internas, recebeu a devida punição: ficou proibida de comer durante uma semana. Sua primeira refeição, após o término do boicote, foi devorada como um banquete dos deuses gregos. Como dizia minha avó, a fome é o melhor tempero.

O tempo foi passando e ela foi se adaptando à nova realidade, chegando até a cultivar boas amizades. Após certo período, foi transferida para outro estabelecimento prisional, onde a barra era muito mais pesada. Foi obrigada a (dentre outras coisas), treinar baratas para contrabando de cigarros e ceder às exigências de pervertidos em troca de favores.

Ao voltar para sua prisão de origem, abraçou e beijou todas suas companheiras de cárcere, afirmando que sentiu muita falta daquele lugar que, há poucos meses, era insuportável.

Onde quero chegar com tudo isso? Lhe digo já!

Já fui uma pessoa que reclamava muito, de quase tudo. Quando comecei a estudar o comportamento humano e o funcionamento da mente, adequei algumas estratégias para me condicionar a agir da maneira que eu gostaria.

Minha primeira meta era parar de reclamar, tanto verbal quanto mentalmente, e desenvolver um sentimento de gratidão, não importando as circunstâncias. Foi quando descobri o poder das referências.

E como funciona esse negócio?

Nossa mente faz comparações o tempo todo. O que é terrível hoje, pode ser maravilhoso amanhã. Quem nos parece insuportável de conviver atualmente, pode se tornar um Dalai Lama ou uma Madre Teresa, perto de outras pessoas que conheceremos, posteriormente.

Quando estamos presos a certos padrões, a tendência é nos adequarmos, tal qual acontece com o liquido depositado em qualquer recipiente, até ocorrer uma ruptura ou um choque. Daí passamos a enxergar sob outra perspectiva, porque temos uma nova referência. Isso é perfeitamente natural.

Na prática, perdemos a sensibilidade para a importância de muitos aspectos fundamentais em nossas vidas. E muitas vezes, como verdadeiros bebês chorões, reclamamos até sem nenhuma razão. Entretanto, quando migramos de um cenário para outro (conceitualmente pior), muda o nosso ponto de vista.

Ou seja, se você achava que estava em uma situação ruim, descobre que tudo poderia ser bem pior.

Pensando criticamente, é possível perceber que agradecemos muito pouco (ou mesmo nada) por coisas simples que já temos normalmente, como saúde, a refeição do dia, amizades, família e até o teto que nos protege. Somente quando perdemos algo ou alguém, vem a reflexão sobre importância e o valor que tinham para nós.

Normalmente, as pessoas agradecem quando algo ruim tem possibilidade de acontecer, mas não acontece, efetivamente. Aí vem aquela enxurrada de ai, meu Deus do céu, muito obrigado. No geral, a vida nos concede inúmeras dádivas e nós não damos nenhuma importância.

Ao utilizar o poder das referencias para projetar em nossa mente uma suposta situação pior da que estamos vivenciando, surge um incômodo constrangimento de reclamar e, naturalmente, começa a brotar o hábito da gratidão, tornando a vida mais leve.

As soluções de muitos problemas aparecem com mais facilidade, justamente porque a mente fica relaxada. Depressão e ansiedade não têm espaço. Os sentimentos de lamúria perdem a força, tal qual um Sansão que visitou a barbearia Pela Porco, e deixou o estabelecimento com um belo aeroporto de mosquito sobre a cabeça.

E como se pratica o poder da referência? Muito simples. Se algo está lhe aborrecendo, faça a seguinte pergunta: poderia ser pior?

Se a pessoa é dotada de um bom senso, geralmente responde sim, poderia ser pior. É claro que tem sujeito que pode pensar barbaridades do tipo: nada pode ser pior que o meu time perder o campeonato. Clássico comentário sem noção.

Exercite essa técnica sempre que puder. Ao perceber que existe a possibilidade de um cenário muito pior, reflita e agradeça pelo que recebeu, mesmo se não for muito agradável. Os resultados são quase imediatos.

E para fechar, um ponto não menos importante. Não importa a quem você agradeça. A gratidão não é, necessariamente, um hábito religioso, apesar das religiões a cultivarem. O importante é ter esse sentimento presente e constante em sua mente e em seu coração.

Em muito pouco tempo, você vai perceber que não é mais a mesma pessoa.

Quer se aprofundar no assunto? Dá uma boa olhada no artigo #11 Razões Para Sorrir e Agradecer Agora Mesmo, publicado no blog Desassossegada, da Stephanie Gomes.

 

Eu costumava reclamar que não tinha sapatos, até o dia em que encontrei um homem que não tinha pés. (Provérbio persa)

1 comentário


  1. Excelente mensagem para começar o dia e refletir um pouco, como no Provérbio persa, “reclamava que não tinha sapatos, enquanto tem gente que não tem os pés!.”

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