Renato Russo em entrevista histórica e reveladora

Tempo de leitura: 42 minutos

Dia 11 de outubro de 1996, o messiânico poeta Renato Russo deixou essa dimensão. E lá se vão duas décadas de saudades. Sua obra, no entanto, continua viva e é eterna para os fãs da (re)Legião Urbana.

Em memória deste grande artista, que marcou a geração coca cola, o Tripa Virada resgata uma de suas entrevistas mais polêmicas e reveladoras, publicada originalmente na revista Bizz, em junho de 1990. Nela, Renato assume, pela primeira vez, sua opção sexual, fala sobre sua libertadora viagem para Nova York, e também solta o verbo sobre modismos, vergonha, medos e tanta outros assuntos, explorados de forma irônica e até engraçada. Aliás, ele tinha um senso de humor bem peculiar.

Quem a leu, na época, vai gostar muito de voltar no tempo e lembrar de episódios que marcaram o período, mencionados na entrevista. Quem não teve essa oportunidade, vai entender melhor porque Renato Russo é, até hoje, considerado um dos artistas mais importantes e relevantes do rock brasileiro.

Entrevistão Renato Russo (Revista Bizz, Junho de 1990)

O poeta da geração 80
Renato Russo: o poeta da geração 80

A ante-sala dos estúdios EMI-Odeon, no bairro carioca de Botafogo, homenageia a fatia mais rentável do elenco da gravadora. Suas paredes, tomadas por discos de ouro e platina, refletem o ecumenismo da música pop brasileira: Paralamas, Mara Maravilha, Blitz, Rita Lee, Reginaldo Rossi (prazer em conhecer).
A contagem dos metais preciosos, porém dá larga vontade à Legião Urbana. E, quando Renato Russo entra como um foguete, a recepção é no mínimo esfuziante. Quatro Estações, o último LP da banda, está chegando à marca platina-dupla (500 mil cópias), número impressionante para um disco lançado em outubro, já sob a disparada hiper inflacionária. Estamos em abril e o pacote Collor of Money não parece ter inibido o ritmo das vendas.

No fim de semana, a Legião fez em Uberaba e Uberlândia seus primeiros shows em quase dois anos e Renato está eufórico – com três músicos engrossando o trio no palco, pôde ser dispensado do violão e dos teclados e diz que, pela primeira vez, está gostando de apresentar ao vivo. Depois de três meses em Nova York, onde gastou “um bloco e dois cadernos”, o bar do brasiliense prepara uma desova até o final do ano – além de um novo LP da Legião para o Natal, provavelmente um disco solo “todo em inglês, completamente fora do mainstream“.

#NR: em 1994, Renato lançou seu primeiro disco solo, o aclamando The Stonewall Celebration Concert, somente com músicas em inglês, dedicado aos vinte e cinco anos da Rebelião de Stonewall, ocorrida em junho de 1969, em Nova York, muito citada ao longo da entrevista.

 

Como foi tomada a decisão de voltar a excursionar?

Não foi por causa das medidas econômicas, não. Foi para testar o repertório novo.

Quando falamos pelo telefone para pegar seu depoimento sobre a votação dos Melhores do Ano (BIZZ 57), você disse que a Legião ia voltar a fazer shows.

Eu tinha de colocar minha cabeça no lugar. Eu estava bastante confuso. O disco foi difícil de fazer, teve a saída do Billy, a renegociação do contrato com a gravadora, formamos nossa própria editora. Estávamos preocupados: será que vão gostar do disco? Logo depois do lançamento, eu viajei. Um pouco depois do primeiro turno (das eleições para presidente). Fui para Nova York e pus minha cabeça no lugar.

Havia uma série de coisas que eu queria fazer. Pensávamos: como voltar para a estrada? Sabíamos que teríamos de fazer isso, estávamos já há quase dois anos sem tocar. Não poderíamos ficar três anos sem aparecer. E se o público se esquecesse da gente? Eu também queria muito experimentar o repertório novo. Eu nunca gostei de show – agora estou gostando mais -, mas o pessoal todo gosta. O Dado e o Bonfá, principalmente… O Billy também gostava.

A gravadora não faz tanta pressão, mas quer saber: E show? E show? Quando é que vai ter show? E faz parte, né? A gente não pode virar uma banda de estúdio – no Brasil não tem muito cabimento. Embora na maioria dos lugares onde podemos tocar a acústica seja ruim, a segurança seja ruim… A garotada quer ver.

Aí eu disse: vou para Nova York e, quando voltar, arrumamos uma sala de ensaio e a gente vai testando um baixista. Foi aí que apareceu o Mingau (NR: que hoje toca no Ultraje a Rigor). Ele estava tocando com o Dado. Mas quem tem a palavra final sobre a escolha do baixista é o baterista. Então, isso foi o combinado.

Quando voltamos, passamos a fazer tudo a seu tempo, que é como gostamos. “Quando é que o disco vai ficar pronto?” Só quando ele estiver pronto. “Quando é que vocês vão fazer show? “Quando a gente estiver com a banda montada. Só que aí vieram as medidas econômicas e todo mundo ficou sem dinheiro. Isso acelerou um pouco. No nosso ritmo natural, acho que só começaríamos a tocar em maio. E ajudou. Pelo menos, com esses primeiros shows, já dá para segurar fraldas de bebê durante uns dois meses.

Eu estava precisando me assumir há muito tempo

Você disse que tinha ido a Nova York para colocar a cabeça no lugar. Que reciclagem foi essa? Nova York não é bem um retiro espiritual.

Não, não foi um retiro espiritual. Eu tinha morado em Nova York há muito tempo, quando era pequeno.

E nunca tinha voltado?

Nunca. Nunca tinha saído do Brasil. Eu ficava meio temeroso de ir com pouco dinheiro. Eu não vou para Nova York viver After Hours (Depois de Horas, filme de Martin Scorsese)! Dessa vez recebemos um bom adiantamento da gravadora por esse disco e achei que era a hora certa. Principalmente porque não estava aguentando Cats na Broadway!

Aluguei um apartamento pequeno, fui montando uma biblioteca, comprei um aparelho de som por trezentos dólares, comprei todos os meus discos favoritos e ficava lá assistindo à TV, saindo, indo ao cinema. Mas basicamente o que fui fazer lá – e em São Francisco – foi entrar em contato com Christopher Street e com o Castro (uma rua e um clube, respectivamente em NY e SF, pontos de encontro gay).

Era uma coisa que eu estava precisando fazer há muito tempo. Eu estava precisando me assumir há muito tempo… mas fica aquela coisa, filho de católico, “você é doente” etc. etc. No meio do caminho, eu já estava pensando: pô, eu sou um cara tão legal, eu não posso ser doente. Eu não sou muito religioso, não, mas eu me ligo nessas coisas. Não só a doutrina de Buda, eu já li muito a Bíblia também. Mas Jesus nunca falou nada contra certo tipo de comportamento. Quem fala isso é a Igreja Católica.

Bem, se eu sou assim e eu sei que sou assim desde que eu me lembro, desde os três, quatro anos de idade. Eu sempre gostei de meninos – eu gosto de meninas também -, mas eu gosto de meninos. Como é que não é natural? Se eu sou assim desde os quatro anos, então sou doente, pervertido… ah, não! Eu já sabia disso. Então, lá foi assim… é o que se chama coming out.

Out of the closet (“Sair do armário”, expressão que significa deixar de esconder sua homossexualidade).

Exatamente. Quer dizer, eu já estava out of the closet há muito tempo. Qualquer pessoa que ouvir Soldados e tiver um pouquinho de… sensibilidade.

Não é tão explícita assim.

Está bem, mas Daniel é (NR: se refere à canção Daniel Na Cova dos Leões). Mas o lance de você ter uma postura gay… eu não gosto dessa palavra também… é mais uma questão política. Essa questão toda da Aids, o lance do Cazuza até hoje me deixa assim… Veja, nós temos praticamente a mesma idade – ele é só um ano mais velho do que eu -, a gente é da mesma cidade, do mesmo signo, faz a mesma coisa, tem o mesmo tipo de vida… Só que, como não tenho uma formação de Zona Sul, eu não era muito espalhafatoso… eu ia no bas-fond lá em Brasília.

Ninguém sabia quem eu era. O Cazuza, não. O pai dele trabalhando em gravadora conhecia todo o meio artístico, era amigo de João Gilberto… Então isso mexia muito com a minha cabeça: poxa, se não é errado, então por que existe Aids) Até eu colocar na minha cabeça que Aids não tem nada a ver com Deus.

Renato Russo e Cazuza
Renato Russo e Cazuza : ícones

Foi isso que fui buscar em Nova York. Aqui no Brasil eu já não estava conseguindo o que eu queria. Eu queria ir nas livrarias. Eu não sabia o que era Stonewall. Todo mundo falava: Stonewall, Stonewall, Stonewall. Não, porque o grande marco foi Stonewall.” Por uma grande coincidência, uma semana antes de viajar eu fui na Leonardo da Vinci (livraria carioca especializada em importados) e perguntei: Vocês não têm livro gay aqui, não? E a mulher: “Deixa eu ver.” Um deles era justamente um que eu estava um tempão atrás, chama-se The Gay Spirit.

É uma teoria assim. Isso não tem muito a ver com rock´n´roll, é uma história complicada. Existem duas facções. Tem o pessoal que diz que a galera é totalmente diferente das outras pessoas, e tem os que dizem que somos todos iguais, e que é só uma questão de opção sexual. O que esse livro coloca é que existe uma sensibilidade diferente da sensibilidade heterossexual e que, ao contrário do que se pensa, na cama é igual. O cara transa com outro cara, a mulher transa com outra mulher. Fora isso, é igual.

Agora, desde criança, como teu cérebro funciona, a questão intelectual é essencialmente diferente. O livro tem uma coisa legal, assim: Quem foram os primeiros gays? Pense na época do homem das cavernas, toda mulher tomava conta da casa e o homem saía para caçar, demarcava o território. O primeiro dia em que apareceu um cara que preferia ficar conversando com as árvores, olhando o sol, escrevendo poesia em vez de ficar demarcando o território e matar o outro cara, foi quando apareceu essa sensibilidade.

Aí vem toda uma discussão sobre uma tal gay sensibility: existe uma sensibilidade gay, e que impacto ela tem na nossa cultura? A resposta: não existe nenhuma sensibilidade e ela tem um impacto enorme na nossa cultura.

No Brasil, todo mundo transa com todo mundo, mas ninguém se acha gay

 

Parece uma visão muito romântica. Será que não existe sensibilidade poética em heterossexuais?

Pode, pode existir, mas é assim… É o que acontece aqui no Brasil, que eu descobri agora quando voltei, aqui todo mundo transa com todo mundo, mas ninguém se acha gay, nem se acha nada. Aqui não tem gueto, não tem nada disso, mas lá eles são muito medrosos. Existe muito antagonismo entre as pessoas. E uma coisa que em São Paulo tinha e agora eu acredito que não existe mais – mas era uma coisa de rock´n´roll e era uma coisa boa. Mas nos EUA é muito profundo.

Aquela coisa: “O quêêê!?! Você ouve New Kids On The Block?”. Isso lá existe em nível comportamental de ideias. Lá quem controla tudo é o Big Brother (o Grande Irmão de 1984, livro de George Orwell). Então negros e judeus e gays e mulheres e crianças e jovens e roqueiros e intelectuais e fascistas convivem mais ou menos harmoniosamente, mas eles se detestam. Sabe aquele negócio do Do The Right Thing (Faça A Coisa Certa, filme de Spike Lee)? É aquilo!

Eu não chegava para certas pessoas para pedir a hora na rua. E muito esquisito. Eu estou com essa roupa (calça de couro, camisa florida), assim, eu não vou chegar para um cara de terno e pedir informação. É tudo muito demarcado. Pelo jeito que a pessoa fala, pelos livros que ela lê… eles se prendem a isso. E um consumismo intelectual.

No palco, com a Legião Urbana
No palco, com a Legião Urbana

Claro que existem pessoas fabulosas que não estão nessa, é o caso de um Arto Lindsay, mas esses caras são totalmente loucos, então nem contam. E dinheiro lá é Deus. É só você chegar com uma nota de cinquenta dólares que já começam a te tratar bem. Por exemplo, eles quase não andam de táxi – mas eu fui lá esbanjar mesmo, fazer minha própria Disneylândia -, então a primeira vez que eu chamei um táxi, estava com conhecidos e… “Ah… você está comemorando?” Os jovens que se vestem assim (apontando para si mesmo)… são pobres mesmo, eu não era conhecido, eles não sabem que eu sou roqueiro nem nada.

Tem gente da nossa idade que é rico, mas são aqueles caras de Wall Street, com apartamento em Park Avenue, é Bonfire Of The Vanities (Fogueira das Vaidades, de Tom Wolfe). Mas a garotada toda com quem eu andava – que gostava de rock e ia para o Village – não tem dinheiro. E eu chamando o táxi e eles: “Hoje é teu aniversário? É um dia especial?” Eu não ia andar no metrô, é horrível, um cheiro de mijo, dá um medo daquelas pessoas.

 

É muito difícil viver numa sociedade onde você é um pária

Eu, com essa cara assim, eles achavam ou que eu era judeu ou grego. Judeu russo, ainda por cima. Como eu tenho um inglês legal, ninguém desconfiava que eu era brasileiro, graaaças a Deus… Porque lá tem muito preconceito. Então, o que eu queria era colocar todas essas questões na minha cabeça. Para mim, nunca foi problema.

Claro que hoje em dia tem a Aids, então você pode transar com quem quiser, tomadas as devidas precauções. Mas era tudo muito difícil, eu nunca me sentia feliz. Sabe aquela música, It´s A Sin dos Pet Shop Boys? Aliás, é a banda mais gay que existe. É bem aquilo. Eu queria ter uma banda. Consegui ter uma banda. Eu queria ter dinheiro. Consegui ter dinheiro. Tenho meus amigos. Mas sempre tinha alguma coisa me espezinhando e eu sabia o que era.

É muito difícil viver numa sociedade onde você é um pária. Só para colocar um paralelo, imagina que o mundo é homossexual e você é hétero. Então, E O Vento Levou vai ter o Clarke Gable com o Leslie Howard. Em todos os lugares que você for… e você não pode abrir a boca para falar “eu gosto de mulher”. A sua família vai colocar a causa do enfarte do seu pai em cima de você. Você é doente.

No colégio, quando começa a doutrinação – você tem de ser igual a todos -, você começa a ficar com medo. Não tem com quem se abrir, acha que é a única pessoa no mundo: então estou errado. E é uma questão de instinto. Eu tenho muito mais facilidade de ficar de pau duro se aparece um cara bonito na minha frente do que com uma menina. Se bem que, com menina, também. Mas eu me resolvi. Apesar de que eu ligo mais para a amizade, principalmente agora que eu tive o meu filho. Sexo por sexo, eu acho que nos anos 90 não pinta mais. Mas isso confundia a minha cabeça. Eu comprava uma série de revistas eróticas que eu gosto – Mandate, Honcho, Torso, Meal, Uncut -, e todo mundo falando de Stonewall…

É o seguinte. Você sabe que a repressão lá é muito grande. Na Inglaterra tem a cláusula 28 (legalizando a discriminação cios homossexuais). A polícia é instruída sobre os homossexuais – eu detesto essa palavra também, o Edward Carpenter usou a palavra “intermediário”, “pessoas intermediárias”, eu não sei a palavra que eu vou usar -, são doentes, promíscuos, usam drogas etc. etc. Então tem no caderninho da polícia – isso eu sei, eu vi – várias instruções. Muita, muita repressão. Hoje em dia, nos EUA” sabe o que estão fazendo? Eles pegam os policiais mais bonitos, em alguns estados onde só flertar com pessoas do mesmo sexo já é crime. Se isso acontecesse no Brasil, não tinha mais Carnaval! E 1984, Big Brother.

A imagem que se tem dos EUA é falsa

Colocam os policiais mais bonitos nos banheiros das estações de ônibus para ficar flertando com os caras. Aí chega o coitado e… entendeu?… é preso. E uma sacanagem. É proibido fumar maconha, certo, aí o cara acende um baseado na tua frente. Em 1969, quando estava tendo toda aquela batalha pelos Direitos Civis – hoje em dia todo mundo se detesta, mas naquela época os negros estavam do lado dos hippies, que estavam do lado dos intelectuais etc.-, tinha esse barzinho que fica justamente na Christopher Street com Stonewall, ali no gueto, no Village, e aquilo desde os anos 20 era um antro, o bairro boêmio. E chegou a polícia.

O mesmo que a polícia chegar na Galeria Alaska e prender todo mundo. Aqui no Brasil isso não acontece e tem urna delegacia ali na frente. Vocês lá, nós aqui, tudo bem. E os policiais chegaram para prender e para bater em todo mundo. De repente, alguém – não se sabe quem – falou: “Não vamos aceitar isso! Naquela época tinha muito travesti nos EUA não tem mais. Aliás, a não ser que eu comece a fingir, você nunca vai saber de mim, nada. Essa coisa dos trejeitos.

A voz da geração BRock
A voz da geração BRock

Tem alguns sociólogos ou antropólogos que dizem que certas pessoas são naturalmente efeminadas, mas gostar de transar com o próprio sexo não e necessariamente a mesma coisa. Aliás, nos EUA, há urna paródia de masculinidade, aqueles caras de couro preto etc. Mas este dia, em Stonewall, até os travestis começaram a pegar pedras, pedaços de pau. Durante cinco horas, na rua, eles lutaram com a polícia e, a partir daquele momento, nasceu a noção de gay pride (orgulho gay): Ninguém vai pisar em cima de mim.

A imagem que se tem dos EUA é falsa, há uma grande hipocrisia, mendigos pela cidade inteira, diferente do que a gente vê nos filmes da Sessão da Tarde. Aqui no Brasil, eu desconfio – não sei se estou certo -, para se fazer um especial de TV um filme, para realmente ter interesse, é sobre algo fora da regra. Então, quando há um grande assassinato, escrevem um livro, fazem um filme. Sabe o que eu descobri? Que esses filmes que passam na Sessão da Tarde – o garotinho que morre de leucemia, o marido que bate na mulher. Essa é justamente a regra e é por isso que eles fazem esses filmes. O americano funciona assim.

Se você é uma pessoa legal, você tem algum problema

Não faz uma coisa “estranha”, só quando o caso já for tão comum que pode ser assimilado, então está pronto para a TV. E a dente aqui assistindo a esses filmes em que o garotinho morre de leucemia, o pai estuprou a filha adolescente, a gente acha que é um caso em mil. É o contrário! A gente aqui tem problemas como o do menor abandonado. Os problemas que eles têm são quase todos de estrutura família.

Quando eu estava lá, era toda semana: quatro, cinco processos por mês de criancinhas molestadas pelos professores. E a pornografia deles é uma coisa esquisitíssima. E um tal de xixi, cocô, chicote. Uma coisa tão doente. É uma sociedade muito esquisita. E o que eles falam dos gays? Querem proibir os gays de dar aula. Vão perder os melhores professores. Não que todos sejam mas… Não é só uma questão de ser gay, está ligado ao fascismo. Se você tem uma certa sensibilidade. Já vão tachar você de comunista ou isso ou aquilo. Se você não é aquele caretão que fala mal de todo mundo e abusa das mulheres etc;

Se você é uma pessoa legal, você tem algum problema. E claro que nos EUA tem essa vantagem: se você é uma pessoa legal, sensível e conseguir ganhar muito dinheiro, aí vira Michael Jackson, vira Madonna, Prince, tira o “x” do problema. Aquela resistência em Stonewall virou símbolo do movimento todo. Na Europa é bem diferente. Na Escandinávia pode até se casar. Os dois caras dos Sugarcubes se casaram agora. Não tem problema. Mas sociedades machistas e católicas tem esses problemas, mas não se comparam aos EUA. Aqui pelo menos a gente tem o Carnaval, o culto ao corpo, à beleza.

Vem o Erasure e se apresenta para ginásios latadas. O cara entra com um saiote de lantejoulas e o público vibra. O cara simula um strip-tease e o público delira. Então, lá o Erasure toca em pequenos clubes do gueto. São questões culturais. Eu adoro falar sobre relacionamentos humanos, e é isso que eu vejo, a solidão, as pessoas que se escondem. Quantos casamentos eu conheço que não deram certo porque as pessoas não se entendem, não se conhecem.

Uma vez, em Nova Jersey, um cara gritou Faggot! (bicha) pra mim. Dá uma raiva…

Então a primeira coisa que eu fui ver em Nova York foi Christopher Street. Só que está difícil. Os caras já não andam mais de mãos dadas na rua. Em São Francisco estavam mais soltos. Tinha um pessoal super anarquista, uns dez caras barbudos, vestidos de freira e de patins que estavam sempre por ali. Mas continua sendo uma comunidade, um gueto. Ao passo que na Escandinávia isso não existe mais. Eu estou com ele, ela está com ela, ela está com ele e vai todo mundo junto. Somos amigos e não tem problema.

Nos EUA tem os guetos, perigosíssimos, como os judeus na Polônia. “Estamos seguros, não é?” Não estão, não. Se você se fecha… É o problema do Harlem: branco não entra mesmo. Há clubes gay pesadíssimos, com aquele som (simula um tecnobate-estaca), os caras de couro preto dos pés à cabeça, vestidos de nazistas. Eu, morrendo de medo, e um amigo meu, que estava comigo, dizendo: “Não se preocupe, são todos legais. Quanto mais cara de mau o sujeito tem, mais manteiga derretida ele é”. E eu ia acreditar nisso? Ha, ha, ha… Aí, outro dia, não queria ir, mas esse amigo insistiu: “Hoje tem filme, não sei o quê”. Aí chegamos – estava passando um filme com a Bette Davis, nunca vou me esquecer – e os caras chorando, com aquelas roupas e tudo (faz uma cara de quem não consegue conter as lágrimas).

E é verdade, porque se você chega perto para ouvir a conversa deles, é tudo assim: “Ah, mas a Barbra Streisand é a melhor”, “Claro que não “E a Judy Garland, coitadinha, não sei o quê. E uma carapuça que eles colocam, a hipermasculinidade. Que surpresa! Mesmo assim é perigoso, não por causa deles, mas pelos fag-bashers (pessoas que atacam e espancam homossexuais nas ruas). Para você entrar e sair desses lugares corre perigo de vida.

A banda que mudou a vida de muita gente
A banda que mudou a vida de muita gente

Um amigo meu tinha um conhecido que vinha a caminho de um clube desses e foi assassinado com um taco de beisebol. Um dia eu estava com uma camiseta de San Francisco e não passou uma suburbana de Nova Jersey e gritou “Faggot!” (Bicha!) para mim? Dá uma raiva… E eles tem um preconceito com San Francisco. Com o Reagan, virou uma sociedade de delatores.

Todos os personagens gays que já apareceram em filmes são sempre doentes, assassinos, psicóticos

Enfim, mas era esse meio que eu queria conhecer. E lá tem umas livrarias fantásticas. As melhores coisas que eu li ultimamente são todas de autores gays. O pessoal mais venenoso chama os héteros de breeders (reprodutores). Não tem sensibilidade, seja uns babacas e tal. Mas não é verdade. Há pessoas heterossexuais maravilhosas, assim como há gays fascistas, é o caso do próprio McCarthy (congressista americano que perseguiu comunistas e simpatizantes no meio artístico americano).

Mas há também a teoria de que se o cara é gay e fascista é porque é reprimido. Se o cara “sai do armário”, não tem problema nenhum, é uma pessoa bacana e sensível, em público”. Bem, esses livros que eu citei são diferentes. Porque Hollywood também criou uma imagem terrível do gay. Eu tenho um livro chamado The Celluloid Closet. O autor, Victor Rousseau, fez um levantamento de todos os personagens gays que já apareceram em filmes de Hollywood: 98% morrem, são sempre doentes, assassinos, psicóticos. Ou então é do tipo Os Rapazes Da Banda, cheios de problemas, depressivos, querendo se matar. A vida não é assim.

Pela primeira vez, existe uma literatura própria. Saiu até na Folha de S. Paulo um artigo sobre o David Leavitt, que é considerado um dos grandes, grandes novos nomes da literatura americana. Mas tem um que eu acho melhor ainda. Ele escreveu um livro que, em português, seria O Declínio Irreversível de Eddie Sockett – um cara chamado John Weie. Nunca um livro me bateu tanto quanto este – só A Montanha Mágica (Thomas Mann).

Veja, estamos numa sociedade que muda, nos sonetos de Miquelângelo, “ele” para “ela”; que quando fazem uma biografia do Cole Porter, arrumam logo uma namorada. É tudo uma grande mentira! Vamos respeita a memória do Leonardo da Vinci! É um medo tão grande que reescrevem a história. E no rock´n´roll… desde o começo tinha o Little Richard. O Elvis mesmo, quando apareceu, aquela coisa super sexual. Até David Bowie, Iggy Pop… o próprio Jim Morrison, que ninguém sabe…

Não quero ser mártir da causa gay

Há um caso notório de um show do Jimi Hendrix em que o Jim Morrison subiu no palco e ficou chupando o cara enquanto ele fazia seu solo de guitarra.

Eu sei, me contaram que o Jim Morrison era tarado pelo Hendrix, “Jimi, Jimi, eu preciso de você!” Mas no rock´n´roll está tudo bem”. Agora, e o cara que perde o emprego por causa de sua opção sexual? Em Nova York tem, além dos mendigos, aqueles caras sentados com um cartaz escrito “Eu tenho Aids, minha família não fala comigo, não tenho emprego”. E as pessoas de repente dão um dólar para os mendigos, mas nem chegam perto do coitado! O cara já viveu a vida se escondendo.

O lance do Morrissey. Eu desconfio – olha só, esta é uma das minhas teorias malucas – que os Beach Boys não lançaram o Smile (LP que seria o sucessor de Pet Sounds), porque o Brian Wilson e o Van Dyke Parks (músico e arranjador) estavam muito, muito próximos, e o Mike Love (um dos Beach Boys), que é um cara horroroso. Não tem explicação. Os melhores trabalhos dos Beach Boys para mim são as colaborações do Brian Wilson com o Van Dyke Parks, o Pet Sounds e, logo depois, aquele período do Surf´s Up. E de repente o cara é jogado para escanteio e o Brian Wilson fica louco. Essas coisas todas.

A gente está entrando nos anos 90 e eu não quero ser mártir da causa gay, nem nada. Eu tenho um filho. Mas vem esse fascismo, daí a controlar a vida das pessoas é um passo. Os jovens são controlados por causa da televisão. Se você não é bonito, não tem um rosto bem-feito, você não presta. Por que você acha que os Smiths ou a Legião ou bandas como Echo atingem tão a fundo? Porque falam disso que todo mundo sabe. Até o Jesus & Mary Chain. São meio loucos, mas dizem “somos assim mesmo, não estamos errados por causa disso.

É claro que a sociedade já incorporou isso e, ao mesmo tempo que você tem Jesus & Mary Chain, você tem Guns N´Roses… e a garotada não sabe. Apesar de a música deles ser muito boa. Acho que a liberdade é uma das grandes questões dos anos 90. A única liberdade que sobrou é a emocional, psíquica. Não quero nunca que me controlem. O ser humano é mamífero, totalmente sexual. Se você reprime isso… essa bobagem: se John Lennon era ou não era gay. E se fosse? Parece que o cara vira um assassino.

não quero ser um mártir da causa gay
não quero ser um mártir da causa gay

Aliás, olha que coisa curiosa, se um ator faz o papel de assassino, ninguém vai achar que ele é um assassino. Agora, se um ator faz papel de gay, todo mundo vai achar que ele é. Tem alguma coisa errada. Isso me interessa profundamente. A humanidade é desumana, mas acho que ainda temos uma chance. O que me preocupa nessa situação dos EUA é que somos muito influenciados por eles. Lá está havendo uma fechadura geral e… não é por nada não, mas se Madonna e Prince estão começando a falar em Deus é porque tem alguma coisa errada. Eles que são os entertainers!

Você já viu o video de “Oh Father?” Aqui no Brasil, com esse presidente… eu não confio nessa coisa da maioria. Sabe, vai ser bom para todo mundo, então vou cortar seu braço. Tem um cineasta novo excelente, chama-se Gus Van Zandt, o primeiro filme dele chamava-se Malas Noches, uma historinha de um cubano que se apaixona por um bancário, super legal, custou meio milhão de dólares. Ai naturalmente ganhou todos os prêmios. Ai o segundo filme é o Drugstore Cowboy, fabuloso, muito legal, o Matt Dilon está ótimo. O filme é de um humor impecável.

Brasileiro é tão mal-educado

O que eu não gosto lá é que você tem tanta informação. Fiquei pensando assim: se eu assistir a esses filmes todos, quando chegar no Brasil vou ficar um ano e meio sem ir ao cinema, sem fazer porra nenhuma. Então me concentrava em programas sobre os filmes. Tem entrevista com o diretor, com o roteirista, mostra o set de filmagem”. Você não precisa realmente ver o filme, assiste ao making of.

Assisti aqui no Cinemania (programa da extinta TV Manchete) sobre o Tempo De Glória, porque o Matthew Broderick é um dos meus atores favoritos atualmente. Não gosto muito de filmes de guerra ou que tocam na questão racial, acho muito chato. Eles não se resolveram ainda nessas questões. Todo mundo lá usa agora esse cabelinho Spike Lee. Altitude é a palavra-chave em Nova York. O jeito como as pessoas andam na rua! E não tem muito louco não – roqueiro, essas coisas, isso está acabando.

Eu achava que ia chegar lá e bum! Só roqueiros, rock´n´roll… Você tem de ir até o Village para ver essas coisas. A garotada toda está com uma pinta de estudante austríaco que leu (Allen) Ginsberg pela primeira vez há três meses… se bem que eu não fui a Los Angeles… também não fui a nenhum show de rock.

Não?

Estava com medo de ou me influenciar ou achar tão bom que ia desistir: “Nós somos horrorosos”. Não dá para comparar, né? Aqui, pelo menos, eu penso assim, para fazer qualquer coisa você tem de pensar no Brasil como o Brasil. Não pode comparar. Teve uma coisa engraçada: a estreia da lambada, foi triste… triste! Eu não queria ir não, mas sou amigo desse cara, o Julian, que escreve para o Village Voice, escreve para a Spin, foi quem fez o texto sobre o Caetano Veloso para a Spin, e ele tinha os convites. Posso falar sobre os shows que eu perdi. Lou Reed e John Cale, Marianne Faithfull, B-52´s e Jesus & Mary Chain. Este eu perdi de propósito. Voltei duas semanas antes, meus amigos já tinham voltado.

Renato com seu filho Giuliano
Renato com seu filho Giuliano

A coisa mais chata é você ver uma coisa super espetacular e não ter com quem conversar. Eu sou muito expansivo e isso assusta as pessoas lá. Não é como aqui, você pode começar: “Pô, que legal etc”. Lá ficam achando que você é um maníaco assassino. Ah! Mas eu estava falando da lambada no Palladium. Eu não queria ir de jeito nenhum. Americano acha que você vai aos EUA para ir num restaurante brasileiro, dançar música brasileira. Uma vez marquei um encontro com outro amigo na Tower Records (loja de discos) e eu perguntei em que seção. Ele: “Vamos marcar na de música brasileira”. E eu: “Por favor” Você não acredita. O que tem é Djavan, Gal, Simone, Beth Carvalho.

Eu queria conhecer o Palladium, dos anos 60 muita gente tinha tocado lá, Cara, que pena dá do Brasil! O lugar já velho, mas um som perfeito, um ambiente perfeito. Dois telões passando o desfile da Mangueira e tocando Olodum e aquele bando de americanos deslumbrados. “Look! Real brazilians!”, “Oh! They´re doing the lambada!” É claro que todos os brasileiros estavam lá, ainda bem que ninguém me conhecia.

Porque brasileiro é tão mal-educado. Não tão mal-educado, mas em comparação com eles. Também tem outra: a tendência é encontrar brasileiros que não são do mesmo nível… aquelas pessoas que você não vai chamar para tomar um cafezinho na tua casa, digamos. Eu detesto dizer isso, mas… aí começa o show da lambada. Nunca vi uma coisa tão brega. Um rufar de tambores e… Eu não sabia quem era Kaoma, nunca tinha ouvido, só que era uma armação de um empresário francês com músicos afro-franceses.

Aquela fumaceira, parecia os números musicais do Fantástico bem brega de antigamente, o fumacê azul e todo mundo com a respiração presa, esperando a lambada. Até aí estava interessante o vídeo da Mangueira, aquele ambiente rococó vitoriano, uma coisa louca. E o Olodum… mas quando começou a lambada! Tinha… parecia aquelas dançarinas do Gugu Liberato, e um dançarino com cara de chicano, com uma calça superapertada e essa chacrete com uma sainha, os dois parados. Aí: Laambaadaa! Parecia show da Broadway brega, uns seis casais dançando, dava para ver que era tudo de Porto Rico ou… do Brasil é que não era.

Lambada não é música brasileira!!

No disco, até parece um pouco música brasileira, mas lá estava mais para salsa (simula os ritmos com a voz). E a banda”. Tinha um da banda do Hugh Masekela, o percussionista, com trancinhas do Senegal. Três meninas cantando, só uma brasileira. Uma negona – a melhor parte do show – não tinha nada a ver com lambada, era Funkadelic. De hot pants, sapato de salto dessa altura e uma peruca loira de plástico, cara! Tocam reggae, até uns rockinhos. Baterista de estúdio, tipo Chicago. E os caras: “Do you want to dance lambada?” E a platéia: “êêê” (num tom de entusiasmo não muito autêntico). E parece que todo mundo adorou! Depois da terceira música eu fui embora. Eu juro que tentei, mas não deu.

Aí saí e ainda tinha gente querendo entrar. Me deu uma raiva. Tinha essas meninas na porta: “Já começou o show? Já começou o show? Por que está todo mundo indo embora? E outras garotas que estavam saindo também: “E que tem um conjunto de música brasileira”. Me deu vontade de falar: “Não é música brasileira”. Mas Deus me livre! Prefiro que achem que eu sou judeu, grego. Depois eu estava ouvindo a tal musiquinha “da lambada” e tem uma nova, a tal da “Melodie d´Amour”. Sabe que é bacana? Obviamente, tem de ficar claro que é uma armação, mas é bacana.

E o vídeo – eu vi no TJ, acho, o telejornal do Silvio Santos – é supersensual, livre e aberto. Toda aquela garotada numa praia linda, aparece a menina do Kaoma vestida de empregada, depois com uma roupa superlegal, tem o loirão dançando com a mulata, um jamaicano dançando com uma loirinha. Superinteressante.

Gente, lambada não é música brasileira
Gente, lambada não é música brasileira

Aquilo no Palladium era só a estreia, mas ia ter aulas de lambada toda sexta-feira. Eu só gostaria que não dissessem que é música brasileira. Eu considero moda de viola mais brasileiro. Mas até o Magal voltou. E a tadinha da Fafá que lançou a lambada séculos atrás tem de aparecer no Faustão para falar: “Geeentee!…” E o Faustão (engrossa a voz): “Pois é, a Fafá que lançou, não foi Fafá?” É um híbrido total. A melodia, pelo menos da primeira música, (Lambada, com Kaoma) é muito bonitinha. E aquele acordeãozinho, bonitinho. Mas de que adianta?

 

O pessoal da MPB é muito mais autêntico do que essa bobagem do rock´n´roll

 

Não sei até que ponto a situação vai estar ou não resolvida quando for publicada esta entrevista, mas veja: vão todas as donas de casa lá falar com o Collor, mostrar o abaixo-assinado, apoiando o plano etc. A Zélia mal chegou de viagem e tem de aturar aquilo. O Collor as recebe pessoalmente, dois minutos na Rede Globo. Agora quando vão os músicos – a única coisa que a gente ainda tem na cultura brasileira é a música – pedir pelo amor de Deus para liberar o dinheiro do ECAD (Órgão recolhedor de direitos autorais).

O Braguinha! A gente é jovem, eu sou roqueiro, estou na crista da onda, se for o caso, para mim não é problema. Mas e o músico brasileiro de verdade? Está aí sofrendo. Eu sei quanto eu ganho de direitos autorais. Toca a música na Rede Globo e são 151 cruzeiros e 22 centavos. E as pessoas que vivem disso? Não deu na Rede Globo, só uma pequeníssima nota e o Collor não vai falar com eles, manda um secretário. Eu acho muito triste.

A Legião é mass media (nr: o conjunto dos meios de comunicação de massa), mas e a cultura brasileira realmente? Precisa vir um empresário francês pegar uma coisa supostamente nossa, depois vêm o Golan e Globus (produtores de cinema, ex-sócios na Cannon) fazer filme de lambada. Em termos de divisas, acho que são as coisas mais importantes: o carnaval, o samba, a bossa nova e agora a lambada. Que mais a gente tem para dar ao mundo? Café? Ninguém mais sabe que o Brasil faz café, lá fora só querem saber do café colombiano. Mas sempre foi assim.

E a gente, que não tem nada a ver com isso, acaba pagando o pato. Como esse pessoal (da MPB) deve ficar ressentido com a gente.” Com razão. Eles, que são muito mais autênticos do que essa bobagem do rock´n´roll, só levam na cabeça. A Dircinha Batista morrendo totalmente esquecida no Asilo dos Artistas. Foi uma grande comitiva, todos de terno – Erasmo Carlos, Guilherme Arantes, Sérgio Reis, todo o pessoal da música sertaneja. Eu acho uma grande sacanagem.

É a diferença entre Dominó e Fellini. O Fellini é que sempre paga o pato. E de repente, não sei se um é mais importante que outro, mas pelo menos tentam fazer alguma coisa. Tudo isso é muito complexo. Eu já coloquei na minha cabeça que eu quero ganhar dinheiro. A gente tem muita sorte! Por um milagre, caímos no gosto popular. Esse é um disco difícil, todos os nossos discos foram.

 

Eu tenho pavor de morrer…  

Aquela música, Há Tempos, “Parece Cocaína” …E toca! Morro de medo de a musa me abandonar, de virar um has been (artista famoso que caiu no ostracismo), de aparecer daqui a uns oito anos num programa assim: “Vocês se lembram? No começo dos anos 80 eles foram muito famosos. Onde estarão eles?” (risos) No Asilo dos Artistas, com meu violãozinho, eu, Marcelo Nova e Paulo Ricardo. Ai, que horror!

Quando falamos pelo telefone, e eu perguntei como estavam as coisas aqui no Brasil e você disse “difíceis”, eu já sabia. Eu sou melancólico, então às vezes fico até secretamente satisfeito quando as coisas não estão indo bem. O jovem Werther. Mas não imaginei o que vinha pela frente. O Collor não dizia que era o Lula que ia mexer na poupança do povo? Eu, que tenho tudo, fiquei puto, imagine quem passou a vida economizando.

Essa coisa dos privilegiados e dos miseráveis. Se são miseráveis não é por minha causa não. Eu já fui professor, sempre me esforcei, a gente sempre tentou dar uma luz para as pessoas – eu verifico erro de concordância no meu disco! Outro dia, eu estava ouvindo a rádio 98 e tocou Monte Castelo. Aí vem o cara: “Mas esse Renato Russo é um gênio! Que letra! De onde será que ele tira essas ideias?” (risos) Pode? Está escrito no disco, ele poderia ter aproveitado para falar: “Pois é, minha gente! O Renato Russo extraiu de Luiz de Camões, um grande poeta português. Você sabia que em Portugal eles falam português?” Mas tudo bem, vamos segurar essa. Eu tenho esse lado melancólico existe até um termo clinico para isso. Eu não tenho motivos para ficar angustiado, preocupado, deprimido.

O meu filho é superjóia. A minha família é superlegal. A banda está superlegal, a gente se entende superbem. Zilhões de pessoas gostam da gente. Fiquei três meses em Nova York, trouxe zilhões de livros, zilhões de discos, tudo que eu queria.

Você não tem a impressão de que, quando está melancólico assim, escreve melhor?

Claro!

Então você precisa disso…

Aí é que está. Não que eu escreva melhor, mas eu encontro sobre o que escrever. Mesmo que seja uma música positiva, como Quase Sem Querer que eu acho super “pra cima” -, sempre vem da necessidade de resolver alguma coisa que não está resolvida. A vida é difícil. O homem ocidental, principalmente no século vinte, não tem contato com a morte. A morte virou antisséptica.

Não há contato com o ciclo natural de nascimento, vida e morte. Basta ver o que estamos fazendo com a natureza. Depois de Sartre e Kierkegaard, já estava na hora… Todo mundo nasce, todo mundo morre. Eu tenho pavor de morrer…

Eu tenho pavor de morrer
Eu tenho pavor de morrer

Que sacanagem fizeram com Angra dos Reis, um dos lugares mais lindos do mundo! Mas a gente precisa desses produtos, eu morro se não tiver meu videocassete, meu CD. Mas deve haver algum jeito.

A eletrônica caminha para a miniaturização, que é ecológica.

Sabe o que eu acho que, se a gente tiver sorte, vai acontecer no futuro? Vamos realmente ter uma aldeia global como McLuhan falou e vamos ser índios. Você vai ter a sua casa com energia solar, o seu terminal ligado à Biblioteca do Congresso ou o que quer seja, e vai ter uma vida natural, uma alimentação natural. Quem dera!

Vamos ter de esperar acabar a última gota de petróleo para poder ter o carro elétrico, cuja patente já está pronta há vinte anos e a pressão das multinacionais petrolíferas não deixa fabricar…vai acontecer enquanto estivermos vivos. As previsões mais otimistas dizem que são só 25 anos.

O que você diria a uma pessoa que acha o verso “Disciplina é liberdade” fascista?
Claro que não é! Ali eu estou falando de autodisciplina. Se você pensar numa relação sujeito-objeto, é fascista, mas numa relação sujeito-sujeito, não é. Não é: “Eu vou disciplinar você”. A natureza é disciplinada. Eu preciso de muita disciplina! Fica tão bonito escrito “Disciplina é liberdade”. E é uma inversão do double think do 1984; “Liberdade é escravidão”, “Ignorância é força”.

Se você tiver um conceito legal de liberdade, imediatamente surge uma ideia positiva. Mas eu acho bacana que as pessoas se preocupem. Deve ser uma questão importante para essa pessoa, para o verso chamar a atenção. O que mais me chama a atenção nessa música é: Lá em casa tem um poço mas a água é muito limpa.

Renato Russo – página oficial

Renato 4 Ever
Renato 4 Ever

2 Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *