Opinião: tenha a sua, mas respeite o que os outros têm a dizer

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Ter opinião sobre qualquer assunto é um direito que cabe a todos que vivem em países onde reina a democracia e a liberdade de expressão, mesmo que seja apenas em teoria.

No entanto, muitos consideram suas opiniões como verdades absolutas universais e não admitem que sejam contestadas. Agem como o personagem do clássico de Zé Keti, lançado em pleno regime militar: podem me prender, podem me bater, podem até deixar-me sem comer, que eu não mudo de opinião.

Nota: a canção Opinião, também gravada por Nara Leão, foi usada apenas como referência no contexto. Sabemos de sua importância e relevância na história do combate à ditadura e a censura nos anos 60 e 70.

Zé Keti e Nara Leão! Unidos por um ideal
Zé Keti e Nara Leão! Unidos por um ideal

Certo dia, em uma das empresas na qual trabalhei, um dos gerentes foi até a sala de Manutenção para falar com o mecânico responsável. Ele queria um dispositivo que filtrasse uma determinada falha de montagem no processo.

Não era tarefa simples, mas o Gerente sugeriu fazer assim, assado e cozido de uma forma extremamente simplificada, como se o tal dispositivo pudesse ser feiro ali, na hora, como se faz um sanduíche de queijo.

O Mecânico, um senhor experiente, desprovido de paciência, fitou o executivo com seu olhar de que diabos esse cara está dizendo? e soltou a frase que ficou conhecida na empresa e até virou jargão:

– Falar é fácil né? A língua não tem osso!

Não foi exatamente a atitude mais inteligente naquele momento, mas ele falou o que muitos de nós queremos dizer quando nos deparamos com situações semelhantes.

Na década de 60, Roberto Carlos “homenageou” uma figura fictícia do colunismo social chamada Candinha, que mantinha uma coluna na popular Revista do Rádio.

O rockMexerico da Candinha (nome da coluna) mencionava a tal colunista, que ganhava a vida falando das personalidades – o que elas vestiam, o que falavam, como se comportavam, quem namoravam, etc. Nada muito distante do que se faz hoje em dia.

Infelizmente, as Candinhas não estão somente no colunismo social e no jornalismo sensacionalista. Elas estão em toda parte e ganharam força com as redes sociais.

Com as redes sociais, surgiram milhares de Candinhas
Com as redes sociais, surgiram milhares de Candinhas

Você já deve ter encontrado pessoas que adoram dar pitaco em tudo, têm sempre opinião formada sobre qualquer coisa – da altura do salto da Valesca Popozuda às complexas teorias sobre o nascimento do universo – adoram criticar e até ficam magoadas quando suas sugestões não são levadas em consideração.

Se acham detentoras de uma sabedoria incontentável e não admitem que alguém ouse ir de encontro às suas opiniões.

No mundo das artes, existe a figura do crítico (musical, de cinema, de teatro, etc.), o sujeito que não cria nada, mas (supostamente) detém o conhecimento do que é certo e errado, bom e ruim, e age como um imperador romano, posicionando seu dedo polegar de acordo com suas conveniências.

Muitas carreiras já foram prejudicadas e até destruídas, por conta deste profissional da opinião correta, mesmo considerando que todos nós temos o direito de ter uma.

Quem é dono da verdade?
Quem é dono da verdade?

No mundo corporativo, existe a figura do Gestor que nunca admite que os subordinados contestem suas estratégias, mesmo quando está na cara que não vai dar certo. Se não der certo, a culpa é de quem executou. A filosofia é eu falo e vocês obedecem.

Em nosso cotidiano, existem inúmeros exemplos, que nem caberia listar aqui. Parentes, colegas de trabalho, vizinhos e amigos que desconhecem a palavra flexibilidade e não admitem opiniões contrárias às suas.

Lidar com essas figuras não é fácil, mas também não é impossível. O problema todo está quando ocorre o encontro de dois (ou mais) cachorros que não querem largar o osso.

Pessoas agarradas às suas convicções, que jamais dão o braço a torcer (pelo menos em público), não se permitem aprender com os outros. Elas acham que sabem tudo.

Desprezam, completamente, a célebre frase socrática só sei que nada sei. Elas têm sua própria máxima: eu sei que tudo sei, e não ouse duvidar disso! Sabe a personagem deMaryl Streepno filmeO Diabo Veste Prada?Guardada às devidas proporções, é por aí.

Quem você pensa que é?
Quem você pensa que é?

Para evitar conflito e gasto desnecessário de energia, o caminho mais sensato é não perder seu valioso tempo discutindo. É inútil. Nenhum dos seus argumentos, por mais coerentes que sejam, não vão convencer o falastrão.

Guarde seu tempo para coisas mais úteis e acabe a conversa concordando com ele ou, se isso for muito difícil para você, dando a entender que vai pensar a respeito. Pronto final. Siga seu caminho.

Um ponto importante a se mencionar: boa parte das pessoas com essas características, são carentes de atenção e/ou inseguras. Precisam preencher uma lacuna existencial. Precisam estar em evidência de alguma forma.

Uma das maneiras mais eficazes e rápidas é “presentear” os outros com sua (suposta) sabedoria. Adoram reconhecimento, adoram saber que estão certos. São metralhadoras giratórias no que se refere a opiniões, sugestões, soluções, convenções e outros tantos ões.

Bom, a finalidade deste texto não é tentar ensinar como se lida com os falastrões e sim sugerir que você não se torne um deles. Não existe problema nenhum em dar sua contribuição em assuntos relevantes para sua vida ou de outrem.

O que pode ser destrutivo, em vários aspectos, é não ter a humildade de reconhecer que nem sempre a razão está com você, por mais difícil que possa parecer. Na medida em que a prepotência diminui, aumentam as novas perspectivas e, como um milagre, surge um mundo novo, completamente diferente do que você conhecia.

Fazendo uma analogia, é como se uma pessoa cega recuperasse a visão. Tudo ao redor parece novo, mas este “tudo” estava lá o tempo todo, bem diante de seus olhos, encoberto pela névoa do orgulho e da soberba.

Como leitura complementar, acesse o artigo Você Sabe Ouvir?, publicado no site Merkatus.

Fale o que pensa, mas aprenda a ouvir
Fale o que pensa, mas aprenda a ouvir

Nota final: a palavra soberba, oriunda do latim (superbia), define pessoas arrogantes, presunçosas, prepotentes e intolerantes. Não há, portanto, conotação com a posição social ou intelectual na qual o indivíduo se encontra. Pode ser “praticada” por qualquer pessoa desprovida do mínimo senso de humildade.

Tão pouco, humildade não é definição de “baixar a cabeça” e também não está relacionada com baixo padrão de vida. Ser humilde é uma virtude daqueles que admitem sus falhas, têm a sabedoria de aprender com elas e a maturidade de corrigi-las. 

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