A triste constatação de que a música está moribunda

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Os apreciadores de música, aqueles que gastam uma considerável soma para comprar discos regularmente e acompanham notícias em revistas e canais especializados, têm comprovado que estamos vivendo (há algum tempo) uma incômoda estagnação, na qual pouca coisa desperta atenção.

A música se tornou clichê, uma sombra do que já foi um dia. Não é mais composta com alma, com emoção. Virou mera trilha sonora.

Recentemente, vivi um misto de alegria nostálgica e tristeza quando assisti ao documentário Woodstock. Mais que uma Loja, do lendário empresário Walcir Chalas, ponto de fundamental importância na formação da cena roqueira de São Paulo e de muitas cidades brasileiras.

Não vou comentar a parte do saudosismo porque quem assistiu e tem mais de quarenta anos, vai entender perfeitamente. O que essa abençoada geração presenciou e sentiu nos anos 80 e 90, não se pode expressar com simples palavras, apesar do documentário ter chegado bem próximo, ao mostrar as lembranças de muita gente que viveu aqueles anos incríveis.

O que me deixou triste – daí o motivo deste texto – foi perceber que muitos dos nossos ídolos estão indo embora e não surgiu nada de substancial para ocupar os lugares vagos.

Não quero dizer que bandas e artistas como Led Zeppelin, Ramones, Motorhead, Mutantes, Beatles, Chico Buarque, Cássia Eller, Metallica, Tom Jobim ou Iron Maiden possam ser “substituídos” em nossos corações. De forma alguma. O problema é que pouca coisa de relevante surgiu no meio cenário musical desde então. Especialmente no rock and roll.

Os últimos artistas que fizeram algo inovador, nasceram antes da década de 60
Os últimos artistas que fizeram algo inovador, nasceram antes da década de 60

Quando se dá uma olhada atenta em lugares como a Galeria do Rock (SP) ou em eventos que reúnem apreciadores do estilo, é fácil encontrar a molecada que ainda molha as fraudas, vestindo camisetas dos ídolos da rapaziada que já está próxima de encontrar o criador.

Isso faz lembrar a clássica canção de Belchior (Como Nossos Pais), lindamente eternizada por Elis Regina: nossos ídolos ainda são os mesmos.  E qual o problema nisso? Nenhum, até certo ponto.

Se eu tivesse filho(a), iria ficar muito orgulhoso ao ver o(a) guri(a) ouvindo um Led Zeppelin IV, usando uma camiseta dos Beatles. Acho que iria até chorar (nego fica mais velho e a sensibilidade começa a aflorar com mais força).

Entretanto, eu saberia que quando ele(a) se tornasse adulto e quisesse contar aos filhos o que rolava na cena musical de sua juventude, não ia ter muito conteúdo. Iria contar as mesmas histórias vividas pelo velho pai.

A não ser que achasse relevante falar alguma coisa do tipo: filho, certa vez, um vídeo do Slipknot teve mais de um milhão de curtidas em cinco minutos. Por aí. E eu, me contorcendo no meu túmulo.

Sei que é difícil para uma pessoa desta geração, compreender a emoção que se sentia quando era lançado um disco novo dos Titãs, Rush, Guns N´ Roses, Caetano Veloso ou Gilberto Gil. Eu lembro que nem dormia de tanta ansiedade e pegava o ônibus bem cedo, para chegar na loja antes das portas abrirem.

Ouvir um LP, olhando a capa e lendo o encarte, era um ritual muito prazeroso (ainda é, na verdade). Os amigos se reuniam (de forma presencial, não por redes sociais) para trocar ideias, impressões, material ou apenas para jogar conversa fora sobre o discos, bandas ou shows. O negócio era quase religioso.

ouvir um disco de vinil é quase uma experiência religiosa
ouvir um disco de vinil é quase uma experiência religiosa

O fato é que isso não existe mais. Os artistas e bandas de hoje – nada contra, vou logo dizendo – que ainda buscam visibilidade em grandes veículos de mídia (como estes que concorrem em programas com Ídolos e afins), seguem uma espécie de receita, de cartilha para alcançar o sucesso (passageiro).

Fico imaginando se Bob Dylan fosse dessa geração e submetesse sua obra aos “especialistas” de hoje. Com certeza, ele seria desencorajado a seguir a carreira musical.

Atualmente, a imagem é tudo e mais alguma coisa. A música propriamente dita, é apenas uma trilha sonora dos desfiles de caras, bocas, estilos e efeitos mirabolantes.

E não podemos esquecer das bundas. Na verdade, a bunda para a música deste século é o equivalente da guitarra, no som que se fazia há trinta anos.

Não posso negar que a imagem sempre teve sua importância, mesmo na era do rádio. Mas a música sempre foi o fator mais importante. Jimi Hendrix, Prince, Janis Joplin e Renato Russo nunca foram uma referência em beleza, mas o que eles produziram e deixaram, não se pode mensurar.

Veja bem. Não sou um cara rabugento. Entendo que vivemos outros tempos. As mudanças são naturais em qualquer civilização. O que incomoda um pouco – especialmente para um apreciador de música, como eu – é saber que não existe renovação consistente.

É triste saber que não sentiremos mais aquele friozinho na barriga quando era lançado o disco novo da banda ou artista que amamos.

Aquela emoção ao pegar a bolacha (ou mesmo o CD e K7), correr para casa e se deliciar com o som saindo dos auto falantes ou dos fones de ouvido. Isso não existe mais.

Daqui a mais algumas décadas, Robert Plant, John Lennon e Mick Jagger vão ser figuras distantes, de um passado glorioso e inigualável, donos de um talento único e insuperável, como representa Mozart, Chopin, Paganini ou Beethoven para aos apreciadores de música erudita. Ninguém surgiu depois deles. Viraram lenda.

No futuro, o Kiss será tão clássico quanto Mozart
No futuro, o Kiss será tão clássico quanto Mozart

Parece papo de velho saudosista, mas não é bem assim. Até aprecio coisas mais novas, tipo Wolfmother, Arctic Monkeys, Weezer e The Strokes. A questão é que – apesar de muito bons – são releituras do que já existia.  Nada surpreendente, nada que te emocione. E isso não vale apenas para o rock.

Este texto não tem objetivo nenhum. Queria apenas registrar uma triste constatação: a música perdeu a importância e a emoção, apesar de ainda movimentar milhões de cifras. Deixou der ser a estrela principal e passou a ser coadjuvante. Em alguns casos, até figurante.

Para se ouvir uma canção com alma, é preciso recorrer às velhas gravações. Os novos artistas – muitos deles, talentosos – estão muito preocupados com suas imagens, técnicas exageradas de interpretação ou mesmo em causar polêmicas deliberadamente plantadas, só para chamar atenção.

Nos dias atuais, não se aprecia música com a audição, sentido a vibração na alma, mas com a visão. O coração perdeu o lugar para os olhos. É a comprovação que, realmente, a música, como manifestação artística que conhecemos, já está à beira da extinção. E isso, meus amigos, é muito triste.

 

Mas ATENÇÃO: assim como aqueles filmes futuristas, em que um grupo de rebeldes se une para resgatar a dignidade perdida, o cenário independente (especialmente no Brasil), vem mostrando fôlego e talento suficiente para dar uma baita esperança a um futuro promissor para a música de verdade. O que nos faz pensar que nem tudo está perdido. Que bom, né?

 

E o Tripa Virada está nessa luta, apoiando a todos aqueles que amam música e querem fazer a diferença neste vasto cenário.

 

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