Entrevistão: Kid Vinil

Tempo de leitura: 15 minutos

 

Kid Vinil nos deixou no dia 19 de maio de 2017. Não foi embora só um artista que revolucionou e causou revolução no rock brasileiro, mas também um ser humano maravilhoso, amável e bem humorado. Nesta entrevista, realizada em 2008, tive o prazer de passar um par de horas conversando e trocando idéias com o eterno boy.

O cara é uma lenda viva do rock brazuca. Seu programa de rádio, onde tocavam novidades como Sex Pistols, Clash, Talking Heads e tantos outros, abriu a caixa de pandora e influenciou muito a rapaziada que, mais tarde, se tornaria expoentes da rock brazuca. Num pais que não reconhece ou se esquece muito facilmente de seus heróis, Kid Vinil ainda desfruta de um certo prestígio mas é muito pouco, considerando sua importância.

 

Mas ele não desiste e mostra que ainda é um Herói do Brasil, apesar da banda que formou junto com o grande André Christovan não exista mais. Seja discotecando em festas saudosistas, seja mostrando suas descobertas, o cara ta na ativa, brigando pela cena independente, garimpando novas bandas e com energia de fazer inveja a muito emo por aí.

 

Recentemente, ele esteve em Manaus participando de um evento onde a Blitz se apresentou no show de divulgação do novo DVD. Kid mandou bem nas pickups e ainda deu canja dos seus antigos sucessos, acompanhado de uma banda local. Sempre simpático, concedeu um tempinho para um bate papo que rolou descontraído mas teve um tom de desabafo. Como não precisa provar nada a ninguém, já que sua obra e sua contribuição estão aí, para as futuras gerações, ele não poupou críticas às gravadoras, às rádios e à indústria fonográfica como um todo. Com vocês, o eterno Boy.

Tripa Virada: Magazine lançou Na Honestidade em 2002. Alguma chance de um disco novo?
Kid Vinil: Olha, nós estamos fazendo a coisa agora pra pôr na internet. O futuro é por aí. Já temos um my space, fizemos um cover dos Beatles para um tributo e todo material novo vamos disponibilizar na internet porque essa coisa de lançar discos pertence ao passado. Infelizmente, porque se fosse lá fora ainda daria pra lançar.

 

TV: Isso por causa da pirataria?

KV: Não necessariamente. Fala-se de pirataria pelo fato de vender o cd barato e o CD oficial deveria ser barato. Mas hoje na internet você consegue de tudo, você baixa qualquer coisa que foi lançada ontem. Esta disponibilidade de se conseguir tão facilmente acaba matando o disco, ainda mais num país pobre, onde as pessoas não têm poder aquisitivo, ninguém vai ter interesse se ter o objeto em si. O cara pega o som e ta beleza. O disco não é um produto de primeira necessidade, passou a ser supérfluo. Acho que isso declara a morte das gravadoras no Brasil. Os artistas disponibilizam suas músicas, vão fazer show sem precisar ter um disco. As pessoas cantam as músicas que elas baixaram e todos saem ganhando.

 

TV: Em seu programa de rádio, muito moleque conheceu bandas que os brasileiros nem sequer sonhavam que existissem. Você foi um porta voz da geração punk, uma espécie de Alan Freed tupiniquim?
KV: É, eu tive o primeiro programa de punk. Muita gente ouvia e gravava fitas e montavam bandas. De fato, fui um dos primeiros caras a mostrar isso na rádio. Eu trabalhava numa gravadora e viajava pra fora. Como o punk era um movimento de periferia, os caras não tinham dinheiro pra comprar discos. Então ouviam na rádio e faziam suas fitinhas. A partir daí a coisa explodiu.

 

TV: Podemos dizer que sem o Kid Vinil, não existiriam Cólera, Inocentes, Ratos de Porão e tantas outras.
KV: Com certeza. Acabou sendo assim porque eu estava no lugar certo, na hora certa, fazendo a coisa certa. Isso foi muito legal.

 

TV: O rock brasileiro ta chato com a invasão emo ou mesmo com a falta de humor?
KV: Exatamente. Eu sinto isso. Não existe mais nenhuma anda bem-humorada. Depois do desastre com os Mamonas Assassinas, sepultaram literalmente o humor. A mídia passou a dizer não a coisa bem-humorada. É estranho mas aconteceu. Pode até existir por aí mas não aparece na mídia. Hoje impera essa coisa deprê, essa coisa de dor-de-corno, de emo, que não sai daquilo. Por isso acho chato. Acho que a banda mais bem-humorada atual não faz sucesso por aqui, que é o Cansei de Ser Sexy. Os caras são bem aceitos no exterior mas não tem vez por aqui porque são bem humorados. A coisa é meio nonsense,  nada a ver, mas é maravilhoso. Porra, uma banda às vezes cantando mal em inglês faz um puta sucesso lá fora. Aqui a mídia descarta. Se tocasse na rádio, as pessoas iam cantar la la la o dia inteiro. Outra coisa legal é o Bonde do Role. É funk mas é divertido, com letras de sacanagem, tipo o humor escrachado dos Mamonas

 

TV: Esse é o cenário brasileiro. Mas se eu fosse um ET que acabasse de ter chegado na terra e pedisse umas dicas de bandas novas do Kid Vinil, Quais seriam?
KV: Bom, eu insisto no Cansei de Ser Sexy, Bonde do Rolê e bandas independentes, tipo Vanguart, Jumbo Elétrico, Los Piratas. Tipo bandas legais que nunca aparecem porque a mídia não quer saber delas…

 

TV: Mas todas essas e mais algumas têm seu espaço garantido nas cena independente, que está se tornando bem forte no Brasil…
KV: Ah sim, sem dúvida. Mas ainda acho que esse tipo de música deveria sim tocar em rádio. Tem muito mais valor do que as coisas que rolam por aí. EU não gosto de CPM, não gosto de NX Zero, acho fraco. Se tocasse Los Piratas no rádio seria muito mais agradável e faria tanto sucesso quanto.

 

TV: A turma dos anos 80 era bem mais unida que as de hoje em dia?
KV: Olha, tem umas figuras que até hoje não se cruzam mas, de certa forma, eu sempre me dei bem com todos. Mas não pode dizer que eram todos amigos mas com certeza havia uma coerência, uma certa união para as coisa acontecerem. Hoje não se vê esse tipo de coisa. Hoje as bandas têm uma coisa chamada ego, que fala mais alto na maioria das vezes. Antes as pessoas se procuravam, trocavam figurinhas, Hoje é cada um por si e deus contra todos.

 

TV: Sem querer tentar ser adivinhão, mas você já não é um boy há um tempinho. Ainda pretende ser herói do Brasil?
KV: (risos) A gente sempre que fazer alguma coisa interessante. Por exemplo, eu apresentei o Lado B na MTV, uma coisa que eu adorei fazer e adoraria voltar a fazer um programa de TV falando sobre rock alternativo. Sou um pesquisador profundo de música alternativa. Faço minhas festas como DJ, sempre rolando bandas alternativas para mostrar coisas novas pras pessoas. É legal a expectativa de fazer uma festa e saber que vai tocar uma banda nova e sentir a reação das pessoas. Isso é muito gostoso fazer. É muito legal você se sentir útil pras pessoas e mostrar coisas novas pra elas. Pra mim, isso é significado do Herói do Brasil. É como eu fiz na época do punk. Adoraria ter um programa de rádio que eu pudesse tocar todas essas novas bandas que estão aparecendo, como eu fiz na MTV. Mas hoje o espaço é tão limitado nas rádios e na TV que não se consegue mais fazer esse tipo de coisa. E o meu sonho era poder voltar a fazer exatamente isso. No Brasil a coisa é bem difícil.

 

TV: E produção de bandas não te atrai?
KV: Não. É muito raro eu pensar nisso. O que eu curto mesmo é mostrar coisas novas no rádio, na TV.

 

TV: Neil Young disse certa vez que Rock’n’roll é como uma droga. Não posso tomá-la o tempo todo, ela me mataria”. Você já está farto do rock and roll ?
KV: Olha, eu acho que ele disse isso mas no sentido do rock ser um vício. Eu, por exemplo, sou um consumidor implacável de discos. Até gosto de baixar alguma coisa pra ouvir mas gosto de ter o formato, principalmente em vinil, que compro de fora. Muitas bandas ainda lançam compactos. Eu sou um doente. Todo dia eu compro disco na internet. É um vício. Vou a falência desse jeito. Minha casa é um verdadeiro museu. E isso pode matar, claro (rs). Ansiedade, ficar esperando o correio na porta de casa, fica contando as horas pra chegar um disco novo. Sei lá, acho que ele quis dizer alguma coisa neste sentido (eu acho que não, caro Kid). Mas farto do rock and roll nunca. Continuo um consumidor implacável de rock.

 

TV: Mas e bandas ou artistas que não são rock em sua essência, tipo aquelas que misturam guitarras pesadas com música eletrônica?
KV: Gosto muito. Tem uma porção de coisas nesta linha que eu ouço sempre. Gosto muito da mistura.

 

TV: Tem alguma  banda que você lamenta ter acabado e alguma  que você lamenta ainda estar na ativa?
KV: Olha, eu chorei quando os Beatles acabaram. Eu sempre fui beatlemaniaco. Isso me causou um choque quando era moleque. Agora tem bandas que tiveram um valor em uma época mas não são tão representativas hoje em dia. Sabe, eu não gosto de julgar dessa maneira. Acho meio cruel. Se o cara quer continuar a trabalhar, que continue. Eu mesmo sou assim. Mas tem coisas que eu prefiro ouvir de uma fase específica. Por exemplo, recentemente rolou um show do Deep Purple. É uma banda que eu gostava nos anos 70 até um certo ponto, depois eu não gosto mais. É o tipo de banda que eu não iria ver o show. Outro exemplo é o Ozzy Osbourne. Eu gosto do Black Sabbath mas não gosto da carreira solo do Ozzy. Tem sua importância mas não faz parte da minha vida. É claro que o fã vai odiar me ouvindo falar isso mas não é tipo de música que me atrai mais. Me atrai muito mais ouvir os primeiros discos do Sabbath do que as coisas dele solo. Tem seus méritos mas, por questão de preferência, eu não ouço. Tem os dinossauros que eu gosto do início e que não consigo ouvir atualmente. Mas alguns eu consigo, tipo Bob Dylan, que é um mito. Eu iria pro show não pelo que ele vai cantar mas pra ver um mito na sua frente. Tem coisa que ultrapassam a barreira do gostar ou não gostar. È o mito em si. E não só o Dylan, Neil Young eu iria em qualquer momento. Lou Reed é um mito, David Bowie é um mito. É diferente. Tem coisas que permanecem. Alice Cooper era um mito pra mim quando eu era moleque mas hoje não significa mais nada pra mim. É difícil explicar isso. É uma questão de gosto. Quem gosta vai, quem não gosta, não vai.

 

TV: Alguma coisa que você gosta e chega a ter vergonha de gostar?
KV: (pensativo) olha…

 

TV: (interrompendo) Roberto Carlos, por exemplo?
KV: Nem posso dizer que não gosto de Roberto Carlos porque vim da Jovem Guarda também. Gosto da Wanderléia e dos outros artistas da época. Não teria vergonha de admitir.

 

TV: (interrompendo novamente) eu adoro Odair José.
KV: Eu também (risos). Eu aprendi a gostar da Gretchen (mais risos). Eu não tenho vergonha de falar o que eu gosto. Se eu gosto, é porque é bom. É gostoso tocar coisas como essas numa discotecagem. É legal a reação das pessoas. Esse lado popular da música tem seu mérito. Ela tem uma razão de ser popular. O povão gosta e tem coisas que viram cult. Quando toco Xuxa nas discotecagens, tem gente que chora. Porra, não era o tipo de música que eu ouvia nos anos 80 mas muita gente que era criança naquela época, adora ouvir Balão Mágico, Polegar, Menudo e tantas coisas que eram execradas pelos roqueiros mas que hoje viraram símbolo da época. A cultura popular é algo que deve ser considerado. Pense numa eguinha potocó. O primeiro impacto é dizer que merda. Mas se parar pra pensar, porra, é cultura popular, cara. Isso vem desde que música é música. Eu cresci na década de 60 ouvindo aqueles sambas bem rasteiros, ouvindo bolero, a coisa mais popular da época. Waldick Soriano é cult hoje mas já foi brega antes. Não tem como negar. Pode até dizer que odeia sertanejo, odeia Calipso mas cara, tem que admitir que é cultura popular e que sempre vai existir. Não dá pra lutar contra isso. É imposição da indústria muitas vezes sim. Se colocasse outras coisas as pessoas ouviriam mas porque apostar no duvidoso quando tem o mais fácil? Se é mais assimilável, melhor investir nisso. Não ouço sertanejo mela cueca mas ouço Tonico e Tinoco, os verdadeiros sertanejos. Tem coisas que eu nem tocaria na discoteca por não gostar mesmo mas sempre tem alguém que pede. Tipo, toca axé. Porra, não tenho isso. Mas tenha certeza que o que é detestado hoje vai ser cult amanhã.

 

TV: A indústria fonográfica te decepcionou em algum momento?
KV: De certa forma sim. É o seguinte. Nos anos 80, a indústria ia atrás das novidades e descobriu muita coisa legal. O Pena Smith descobriu Ultraje, Titãs, Ira, e mais um monte de bandas. Eram produtores que estavam antenados. Já na década de 90 em diante, sempre tinha por trás alguma cara que não conhecia de música, tipo um sujeito de marketing,  O diretor da gravadora não precisava conhecer música e sim de marketing. Foi aí que comecei a me decepcionar porque os caras que estavam por trás não manjavam de música. Só de marketing. Meio que destruíram a música brasileira em geral. Não só o rock. A indústria passou a buscar produto de marca como o pagode mal feito, sertanejo dor-de-cotovelo, Foi se criando os monstros de mídia, de marca. Isso pra mim matou o cenário da música brasileira graças (ironicamente) a indústria fonográfica.

 

TV: Você acha que a rádio deixou de ser aquele veículo importante de divulgação que foi em décadas passadas?
KV: Eu acho. Hoje as rádios estão na onda das gravadoras. São os caras que não entendem nada de música que ditam as normas e empurram seus produtos para as rádios tocarem. A última experiência que tive na Brasil 2000 foi assim. Eu comecei mudando toda a programação, fazendo quase lado B total. Peguei pesado. Só que os donos da rádio chegaram pra mim e falaram: cala a boca. Muda porque isso não é o que a gente quer. Vai pro lado A. Até que chegou o momento que entrei em atrito com eles e fui convidado a sair. A rádio ficou meio perdida, sem identidade. Mandou todo mundo embora, teve problema de grana, não podia pagar mas ninguém. Enfim, destruíram a rádio. Isso acontece muito. A filha do dono gostava de emo, a outra gostava de outra merda qualquer e diziam, porra esse cara ta maluco tocando essas coisas. Fui taxado de maluco mesmo. Chegou um ponto que quando se falava em KId Vinil numa rádio os caras já diziam não, esse cara é maluco beleza. Só toca lado B e vai destruir minha rádio. Essa é a mentalidade das pessoas que conduzem as rádio no Brasil. Ninguém quer se envolver, ninguém quer ir pra frente. Todo mundo anda pra trás.

 

TV: Projetos futuros em andamento?
KV: Bom, como já disse, o Magazine está gravando músicas que serão disponibilizadas na internet e vamos participar de um projeto, tipo tributo ao Álbum Branco que um cara do Rio de janeiro está conduzindo, onde vamos regravar Birthday. Primeiro vai sair virtual e depois talvez lancem no formato de cd em edição limitada.

Kid Vinil

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