Ian Curtis, o Noel Rosa do Pós Punk

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Há quase 38 anos, no dia 18 de maio de 1980, Ian Curtis se enforcou, encerrando a trajetória do Joy Division, banda que influenciou boa parte do pós-punk produzido na década que se iniciava, incluindo a venerada Legião Urbana.

 

Este artigo faz um breve resumo da trajetória tumultuada de Curtis e Joy Division, sendo que parte do texto foi publicado originalmente em 1988, na extinta revista BIZZ.

Nota: para quem não entendeu muito bem a menção do brasileiro Noel Rosa no título, vamos esclarecer:

Ian Curtis morreu muito cedo – aos vinte e três anos – mas influenciou as gerações posteriores, tanto na música quanto nas letras, coisa que poucos artistas da idade dele conseguiriam normalmente. Noel Rosa fez o mesmo, só que morreu aos vinte e seis, quase inaugurando o mórbido Clube dos 27, denominação não oficial, criada para mencionar os artistas que morreram aos 27 anos

 

O mito

O culto a Ian Curtis, saudoso vocalista do Joy Division, segue atravessando gerações. Suas canções cativaram Bono Vox (U2), Kurt Cobain (Nirvana), Courtney Love (Hole), Robert Smith (The Cure) e até George Michael. No Brasil, Renato Russo, que copiou dele a famosa dança epilética, foi o mais devotado discípulo

O homem que sombreou a geração 80 com fascinantes visões do lado escuro da alma se enforcou em 18 de maio de 1980, aos 23 anos. Havia se descoberto epilético cerca de dois anos antes, estava sob tratamento com remédios fortes que, ao contrário do previsto, convulsionaram mais ainda sua mente.

Ian Curtis ainda é objeto de culto

Atormentado de culpa pelo fracasso de seu casamento, Ian se matou na véspera de ir para os EUA numa excursão que tinha tudo para torná-lo um astro. O senso comum definiria seu gesto como uma covardia, considerando-se que era pai de um bebê.

Em 24 horas, ele teria botado pra f.. na América e se divertido como nunca na vida, lamentou o baixista e amigo Peter Hook.

Ficaram as canções carregadas de tensão, desencanto e remorso, assustadoras imagens poéticas de isolamento e aridez emocional. Tudo, é importante ressaltar, sem uma sílaba sequer de autopiedade – coisa rara no rock, o que, comparativamente, engrandece muito sua obra.

Mas ficou também um incômodo estigma: Joy Division, sinônimo de música depressiva, claustrofóbica, mórbida. A idéia incomodava Ian. Morte e destruição é com o heavy metal. Nenhuma das minhas canções é sobre morte e ruína. Elas vêm de confusão, de coisas que não sei ao certo.

Anos antes de se enforcar, no fim de 1997, Michael Hutchence, do INXS, assombrava-se com tanta angústia: Eu escutava Joy e não conseguia acreditar que alguém pudesse estar cantando aquelas coisas.
 

Cuidado ao ouvir esse disco

Antes de a vida e o cérebro de Ian se embaçarem, ele tinha inspiração de sobra para compor o que compunha. Trabalhava no serviço público encaminhando deficientes para empregos. Era fascinado por casos como o de seu vizinho com síndrome de Down. Seu escritor favorito era J.G. Ballard, autor do perverso Crash, filmado por Paul Haggis.

Capa de Unknown_Pleasures

Em 1979, ao ouvir pela primeira vez a mixagem final do álbum de estréia, Unknown Pleasures, Bernard e Peter Hook odiaram. Acharam tudo sombrio e menos barulhento do que soavam. À revelia da banda, o produtor Martin Hannett havia criado a cara sonora que para sempre identificou o Joy Division. Ian gostou.

Tony Wilson, o patrão, dono da gravadora Factory, adorou. A imprensa babou. E uma resenha no semanário Sounds intitulada “Death Disco”, havia o seguinte destaque: Se você anda com pensamentos ruins na cabeça e ouvir este LP, vai se suicidar

Primeiro EP e ataques no palco

 

Em 1976, todo jovem que via os Sex Pistols ficava se coçando para formar uma banda. Não foi diferente com os amigos Peter Hook e Bernard Sumner, que em 1977 publicaram um anúncio de jornal que trouxe Ian – um jovem já entediado com o casamento.

No início, batizada Warsaw Pakt , o proto-Joy era uma banda punk comum e a voz de Ian ainda não soava Ian Curtis. Com a entrada de Stephen Morris na bateria e a notícia de que havia um grupo com o mesmo nome, transformaram-se em Joy Division.

O nome, tirado do romance sadomasoquista A Casa De Bonecas, de Karol Cetinsky, referia-se à zona das prostitutas nos campos de concentração.

Com as 400 libras que o funcionário público Ian Curtis pediu no banco para “mobiliar a sala”, o Joy gravou o EP An Ideal For Living.

A capa mostrava um garotinho da Juventude Hitlerista. Tudo para provocar a imprensa, que nós odiávamos, garante Bernard.

An Ideal for Living

Ian, germanófilo, gostava de Nietzsche. Ao mesmo tempo, adorava Marley e fez vários shows anti-racismo.
Projetado num concurso de bandas, o Joy Division gravou um disco abortado para a gravadora  BMG e acabou assinando com a independente Factory.

Deborah engravidou e logo em seguida, veio a estréia em Londres. Na volta do show, decepcionante, Ian teve seu primeiro ataque epilético. Doença controlável, a epilepsia marcou a vida de gênios como Dante, Van Gogh, Dostoievski, Flaubert e Machado de Assis. Mas Ian ficou abalado.

A excitação dos shows o levava a ter ataques no palco. Quando isso não acontecia, ele só dormia depois de esperar o ataque. Tinha medo do sono. Chegou a ser dito que sua maneira de dançar era uma paródia macabra das convulsões. A coreografia, porém, já existia antes.

Quando Ian tinha um ataque no palco, platéia e crítica ficavam eletrizadas – achavam que fazia parte do show. As letras, cada vez mais turvas no álbum de estréia, Unknown Pleasures, suscitavam altos elogios.

As pessoas o admiravam por aquilo que o estava matando,  lembra Deborah.

 

Culpa, confissão e Closer

Deborah deu à luz Natalie em abril de 1979. Ian, pai cada vez mais distante, nunca segurava o bebê. Dizia ter medo de sofrer um ataque com ela nas mãos.

Em agosto, o Joy Division foi convidado para abrir uma turnê dos Buzzcocks pela Europa. Ian largou o emprego. Já tinha sido até capa do Melody Maker, mas, durante a viagem, recebia – ele e os outros – apenas cinco dólares de diária. Havia recessão até no showbiz.

Num show em Bruxelas, Ian conheceu a belga Annik Honoré e iniciou um relacionamento. No  tour seguinte, voltou para casa culpado, bebeu, cortou páginas da Bíblia (trechos sobre fidelidade, Jezebel) e fez cortes no próprio peito. Deborah descobriu. Confrontado, Ian disse que não a amava mais. Tinha uma foto da cadela Candy na carteira, e nenhuma da filha e da mulher.

Vieram as gravações do magnífico álbum Closer.

Closer, a obra prima do Joy Division

No começo de abril, Ian tomou uma overdose de remédios. Banda e empresário não se tocaram se tinha sido tentativa de suicídio ou acidente: o cantor pulou praticamente do hospital para o palco. Com o divórcio já decidido, ele morou um tempo com Bernard.

Na véspera de viajar para os EUA, assistiu a Stroszek, filme de Werner Herzog, e visitou Deborah. Quis desistir da separação, mas ela disse que no dia seguinte ele mudaria de idéia. No fim da conversa, Debbie foi para a casa dos pais dela.

Derradeiros momentos

Ian ficou, tomando café e dois dedos do uísque que restava. Ouviu The Idiot, magistral álbum do iguana Iggy Pop, escreveu uma carta e enforcou-se na cozinha com a corda de estender roupa. Deborah escolheu para a pedra do crematório a frase Love Will Tear Us Apart, a canção mais famosa da banda.

Ninguém do Joy Division chorou no funeral. Deprimido, dias depois Bernard tomou um porre e descobriu a música eletrônica, em um disco de Giorgio Moroder.

Por esse caminho, seguiram também Peter Hook e Stephen Morris, formando o New Order, ironicamente a banda que alegrava as pistas de dança nos anos oitenta.

New Order

Deborah se casou de novo em 1982, com Roger Boden, seu sócio num estúdio de gravação, e teve um outro filho.
Legado

Em estúdio, Ian gravou com o Joy Division apenas dois álbuns e alguns singles. Não foi preciso mais para garantir um lugar na História. A mitologia do rock tratou de preservar mais um bom selvagem. Talvez o mais puro deles.

Com o suicídio, Ian Curtis teria se recusado a virar astro e a botar as mãos no “dinheiro sujo do sucesso”. Encarava seu caso com uma groupie belga já como um imperdoável forma de fraquejar diante da corrupção do showbiz. Pouco importa se a disfunção neurológica e psiquiátrica tenha sido a verdadeira autora do empurrão para o abismo. A lenda continua sendo publicada. Mas a obra dispensa beatificações.

 

Nota do Blog: para quem quer conhecer a história de Ian Curtis na telinha, a sugestão é o genial filme CONTROL, que mostra de uma forma extraordinária a trajetória do vocalista. 

 

2 Comentários


  1. Impressionante sua devoção e conhecimento sobre o Joy Division e Ian Curtis.Acabei de saber de muitos fatos ainda desconhecidos.Muito obrigado por esta verdadeira "aula".

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