Bate bola CAZUZA X LOBÃO

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Vamos lembrar Papo cabeça entre dois gênios do rock pop nacional. Agenor de Miranda Araújo Neto (Cazuza) e João Luiz Woerdenbag Filho (Lobão) em Setembro de 1985, publicado na Revista BIZZ número 2.

 

                                         CAZUZA X LOBÃO

Reunir dois rockstars num mesmo lugar, à mesma hora, é quase tão difícil quanto fazer Reagan dançar valsa com Gorbachev. Mas nós conseguimos. Não foi fácil. Turnês, gravações e dedicadas sessões de sono resultaram em dois meses de dura negociação para por Lobão e Cazuza frente a frente. Até que, numa noite carioca regada a uísque e gargalhadas, os dois sentaram-se na sala de Cazuza e conversaram sobre o rock, sobre Madonna, sobre rock, sobre Menudo. E sobre rock, também.

O que é o rock?

Lobão: O rock é uma atitude…mas a caretice também é uma atitude; ou melhor, é uma síndrome.

Cazuza: É a idéia da eterna juventude.

L: Ah, isso é ridículo!

C: Não!!

L: Eu não acredito nisso.

C: Mas o rock´n´roll nasceu de uma coisa adoles-cente, de rua…

L: Mas aí você vai crescendo, cara! Tem que tomar juízo na cara até assumir uma outra idade.

C: Não! É ficar velho e brincando de trenzinho.

L: Não, você transforma a brincadeira do trenzinho numa brincadeira adequada.

C: Mas como começou esse papo?

 


L: O papo começou com a síndrome do rock´n´roll como atitude, a caretice como uma atitude e a síndrome da caretice no rock´n´roll.E a outra ati-tude, que seria o conceito de assumir a caretice como conceito dentro do rock´n´roll, que já é uma outra síndrome. É uma metasíndrome.

C: (batendo palmas e gargalhando) Lobão não nega suas origens germânicas.Ele é um filósofo, ha, ha, ha. Wolfgang Lobão!

L: Que é isso? Minhas ossadas estão impunes.

C: Quando eu descobri o rock eu descobri que podia desbundar. O rock foi a maneira de eu me impor às pessoas sem ser o gauche – porque, de repente, virou moda ser louco. Eu estudava num colégio de padre onde, de repente, eu era a escória. Então, quando descobri o rock, descobri a minha tribo; ali eu ia ser aceito! E rock pia mim não é só música, é atitude mesmo, é o novo! Quer coisa mais nova que o rock? O rock fervilha, é uma coisa que nunca pode parar.

L: Posso falar?

C: O rock não é uma lagoa, é um rio.

L: É isso aí: pedras rolando para não criar limo. O rock é uma questão de velocidade de informação artística, é um fenômeno de final de milênio.

C: O rock é a vingança dos escravos!

L: Não, porque o rock também é o Antídoto da vingança.

C: É, porque não é para ser ouvido, é para ser dançado, é uma coisa tribal.

L: Rock seria síntese.

C: Rock é simplesmente uma batucada.

L: Não é, não. Batucada tem muitas. O rock é mais que isso. O rock brasileiro é piada

O rock brasileiro é piada

C: O rock brasileiro é fazer gracinhas, é contar piada.

L: Com o dedinho pra cima.

C: Mas o samba também é.

L: Mas o samba é mais pesado. É um dedinho pra cima que tem um peso que não tem essa atitude aí. No samba acho até conveniente o dedinho pra cima, pelo ritmo, pela etnia.

C: Porque eles cantam a fome às gargalhadas.

L: Eles resgatam o lixo. E os outros não: se transformam em lixo sem resgatar.

C: O que é pior, imperdoável.

L: Seria perdoável pelo nosso conceito de não ser fascista,ha, ha, ha. Na verdade, nós somos fas-cistas. Somos fascistas mas”somos brilhantes”.

C: Ha, ha, ha, ha, ha. (mais sério).Vamos ver o panorama que a gente está vivendo: rock no Brasil, que dá certo, é o rock que a Blitz inventou, que é genial (pausa). Mas está mudando.

L: Não é mais e o Ultraje prova isso. O texto do Ultraje é mais forte, é mais incisivo. E a Blitz, quando começou, tinha um texto fortíssimo, uma atitude muito forte – tinha até palavrões. E os textos eram tão fortes que acabaram sendo cor-tados. E foi justamente nessa hora que eu saí da Blitz, quando estava virando Carequinha. Eu até profetizei pro Barreto: “Um dia vocês vão acabar descendo de helicóptero no Maracanã na festa do Papai Noel”.E eles acabaram descendo! A diferença entre o Ultraje e a Blitz é que o humor da Blitz é de beira de praia e o do Ultraje é urbano.

C: Eu acho que a Blitz é teatro infantil, super bem feito, impecável.

C: Eu concordo com uma coisa que o Pepe Escobar disse no TV Mulher. Ele disse que hoje o rock brasileiro está no mesmo estágio que os Beatles e os Rolling Stones estavam 20 anos atrás. Eu achei legal.

L: Meu nível de informação não Permite que eu me enquadre nesse tipo de coisa.

C: Nem o meu!

L: Porque ele fica preocupado com os grupos de Manchester! Ele parece pingente do trem-bala!

C: Não vamos falar mal de ninguém!

L: Eu não sou a favor da precariedade, como eram (precários) a Tropicália e o Cinema Novo. Eu sou a favor da qualidade e sou a favor da internacionalização. Acho que estamos vivendo um período de entressafra. É claro que a gente vai ter que dar cabeçada – o movimento começou a ser deflorado agora. Vai pintar muita coisa legal e muita besteira. Então, a gente não pode ser muito implacável com a banalidade.

C: O que a gente tem de forte no rock brasileiro é o “agá” que a te leva.

A nossa intelligentzia

L: Ouvi um (intelectual) me dizer: “Como posso dar valor (a essa geração de artistas novos) quando ouço um Milton, um Caetano?”

C: O Caetano acha que nossa geração não tá com na-da, que a dele é que foi boa. (Mas) o Lobão tambem é muito radical. Ele e a Marina têm uma coisa genial de “vamos cortar as cabeças. Para uma geração prevalecer tem que cortar a cabeça da outra”.

L (exaltado): O Caetano é quem começou!

C: O Caetano rebolava e fazia tudo para chocar João Gilberto, que era o ídolo dele. E aí, então, a gente tem que chocar os ídolos da gente.

L: Mas isso é natural!

C: Mas eu sei disso, então não preciso…você de repente fica falando mal do Chico… pra quê?

L: Porque eu gosto dele. Eu vou falar mal de quem não gosto?

Madonna e Menudo

C: Madonna é uma Marilyn Monroe,não é rock.

L: Mas Marilyn é rock.

C: É, Brigitte Bardot também.

L: A Madonna é o rock com outra dialética. Menudo é rock?

C: Não, Madonna é um Menudo!

L: É uma síndrome. Não é uma questão de ser ou não rock; aí, é fascismo da gente. Ela não deixa de ser rock, porque ela tem os ingredientes.

C: Ela é Broadway.

L: Mas tem muita coisa na Broadway que é rock.

C: Não existe coisa rock´n´roll na Broadway, pelo amor de Deus!

L: O Prince, pra mim, é Broadway. Estou falando que a Madonna utiliza a linguagem do rock´n´roll em prol de outra dialética. Ela tem um elemento de estética rock e não de atitude rock.

A Máfia controla tudo

L: E a Máfia é rock´n´roll?

C: A Máfia não pode nunca ser rock´n´roll!

L: Ah, não? Então deixa eu te contar uma coisa. Quando eu tocava com o Patrick Moraz, na época do Vímana, ele me contou que o primeiro grande nego-cio do mundo é a indústria de armas atômicas. O segundo é o show-business. E drogas. E quem coman-da essas três coisas? A Máfia, no mundo inteiro. Então, um grupo musical do circuito Europa/EUA, quando atinge um certo status, vai ter que lidar com a Máfia, que controla tudo – a Máfia está in-filtrada nas gravadoras, no empresariado em geral, de locação de estádios e tudo mais. A Máfia é a empresa mais bem-sucedida do mundo.

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