Tim Maia: Aqui no Brasil ninguém sabe cantar

Tempo de leitura: 4 minutos

Entrevista com Tim Maia, concedida à revista BIZZ, edição número 3, de outubro de 1985

Qualquer que seja a onda, Tim Maia está aí, sempre nas paradas. Agora é a vez de Leva, uma das faixas de seu novo álbum editado pela RCA.  Aos 42 anos, Sebastião Rodrigues Maia está na estrada desde 1957, quando formou o grupo The Sputniks, que contava também com dois ilustres desconhecidos, Erasmo e Roberto Carlos.

É Tim Maia quem lembra: Só que eu nunca fui da Jovem Guarda e quando eu chegava perto eles diziam: ´Ih, lá vem o Tião Maconheiro´. E saía todo mundo fora. Mas, graças a Deus, esta caretice já está terminando.O Erasmo, eu ensinei a tocar violão e o Jorge Ben era meu fã.O Roberto Carlos também passou pela minha escolinha quando veio lá de Cachoeiro do Itapemirim. Ele cantava como o Tito Madi e o João Gilberto.

 

Quando a Jovem Guarda estourou, Tim Maia estava longe. Ele passou cinco anos nos Estados Unidos, na década de 60. E, se já curtia o rock´n´roll básico, voltou impregnado da soul music.

Em 1970, veio o primeiro sucesso – através de Elis Regina que gravou a música These Are the Songs. Na seqüência, irresistíveis soul-samba-canções como Primavera, Azul da Cor do Mar, Gostava Tanto de Você e o forró Coroné Antônio Bento conquistaram o Brasil.  Tim ficou parado dois anos, de 74 a 76, ligado à religião Universo em Desencanto. E voltou livre de qualquer crença ou ideologia.

Desde então, tem entrado e saído de gravadoras, mas seu público o acompanha. Ele tem curtido e dá força ao rock que invadiu a MPB: Os “bossanoveiros” estão grilados agora, e vão grilar ainda mais com esta rapaziada nova, este pessoal doidão aí… RPM, Ultraje, Cinema a Dois… Esses sim é que vão arrepiar. Nós, eu, Erasmo, Roberto, Gil, Caetano, só começamos, mas agora é que é para valer…

Elogiado por sua visceral participação em Chega de Mágoa, Tim não vê muita vantagem nisso: Aqui ninguém sabe cantar. Tem que chamar um negrão americano e levar às gravadoras para ensinar toda essa gente. Mas o lance do Nordeste foi legal, pela ajuda e por ter unido todos nós. O artista brasileiro tá muito pomposo, tem que ter mais coleguismo, união e mais inteligência.

Tim vem tocando com a banda Vitória Régia (também o nome de sua gravadora) nas periferias do Rio e São Paulo: Minha banda é como a minha família, uma família danada, de pretos, mulatos, sararás miolos, nego-aço… Meus shows são para black aqui, black ali, em clubes humildes, pro povo mesmo. Nunca ataquei em Canecão, Palace, mas gostaria de fazer um Parque Laje (no Rio), por exemplo. Nunca fui convidado, o pessoal tem o maior medo de me contratar. Fica essa fama de irresponsável, mas eu sou tão irresponsável que tenho uma gravadora e uma editora.

Cabra-cega

O jogo é assim. Primeiro, o músico ouve uma canção não-identificada e, além de fazer seu comentário, tenta dar o nome ao boi. Tim Maia não hesitou em enfrentar esta parada e, se não identificou todos os artistas, não teve dúvidas quanto aos estilos e procedências, confirmando seu ótimo ouvido:

Renegades of Funk – África Bambaataa & Soul Sonic Force : Ótimo som, deve ser pessoal black de Nova York, com muita eletrônica. Isso aí é uma Lynn 9 000, o computador rítmico mais usado agora, o mais recente da Lynn.

Shadows in the Rain – Sting : Esse é branco, né? Conheço essa voz. O som é de bateria mesmo, e o pessoal está tocando mesmo e demais, gênio!

Avenida Brasil – Marina : Marina, né? É um negócio estranho, eu não entendo muito, mas gosto dela, apesar de complicar demais.

Youth – Black Uhuru : Isso é reggae com sotaque de preto jamaicano, bom reggae, mais pra vanguarda.

Rio do Delírio – Lobão & Ronaldos : Que desgraça é essa? Pela introdução já deu pra sentir que é brasileiro. A música não é ruim… parece o Lobão… ele tá com um funk novo bom, ´Decadence…´, mas essa não dá pé.

Mountains – Prince : Prince, ele é o Sly Stone do momento. É o cara mais besta que tem no mundo, mas é o melhor do momento. Ouviu muito Sly.

Sob a Luz do Sol – RPM : Não gosto da mixagem, quem é, Zé Ramalho, Guilherme Arantes? Pera aí, é o RPM, eles não são ruins, gosto de ´Louras Geladas´. Esse pessoal é que vai arrepiar, vai mudar tudo, o Roberto Carlos vai ter que se cuidar.

What Would I Do – Van Morrison : É isso que o brasileiro tem que aprender, cantar. Por aqui ninguém faz isso, quatro, cinco notas num vocal. Lindo, isso é blues puro, mas o cara que tá cantando é branco. Belo vocal, no estilo do blues mesmo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *