Questão de Foco: uma coisa de cada vez

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Em tempos em que o foco parece ser algo sobrenatural, especialmente pela quantidade de informações despejadas das diversas fontes tecnológicas, fazer uma coisa de cada vez parece ser impossível e até pouco produtivo. Mas não precisa ser assim.

A biologia, a física, a filosofia e o bom senso estão resgatando uma regra de ouro que aprendemos há muito tempo, quando apenas jogávamos varetas.


Certa vez, muito intrigado, um discípulo abordou seu velho mestre:
– Como o senhor, de idade tão avançada, parece ainda mais novo que nós? Como pode estar sempre tão bem disposto e alegre?
A resposta veio em seguida, mas naquele tom calmo, comum aos sábios, ondulante e com todas as pausas:
– Quando eu como, eu como. Quando eu durmo, eu durmo.

Essa pequena história, de nobre mas desconhecida origem oriental, nos dá pistas para investigar um tema que muito nos interessa nos dias de hoje: a dificuldade que temos ao tentar fazer uma coisa de cada vez.

O homem é um ser explorador por natureza. Graças a essa característica espalhou-se pelo planeta, povoando todos os continentes. No entanto, a mais importante das explorações do homem deveria ser a exploração de si mesmo, do seu mundo interior, intrapsíquico, espiritual. O “conhece-te a ti mesmo” socrático encontra apoio na psicologia moderna, que deseja um homem autoconsciente, equilibrado, senhor dos próprios pensamentos e do próprio destino.

A exploração interna, entretanto, tem estado em crise. Informações, tarefas, cobranças, desejos, ofertas, temos tudo em excesso. Não dá tempo para olharmos para dentro, porque temos muito aí fora para olhar.

Além disso, a vida moderna às vezes faz exigências paradoxais. Aquelas que, quando você atende a uma, não pode atender à outra. Manda você estar ligado a todos os assuntos ao mesmo tempo, “antenado”, “plugado”, “conectado”, só para usar alguns dos neologismos pertinentes, mas também manda você ser calmo, sereno e criativo. E dá pra ser tudo isso simultaneamente?

Tudo ao mesmo tempo, agora

Lembro-me de um amigo praticante de yoga que foi convocado para servir o exército. Ele me disse:
– Está sendo uma boa experiência. A única coisa que não entendo é quando o sargento manda a gente encolher a barriga e encher o peito de ar. Como fazer isso se para respirar fundo eu preciso baixar o diafragma e então não dá para encolher a barriga?

O mundo atualmente também é assim. Manda você respirar fundo e encolher a barriga. O principal de todos os conselhos “modernos” que costumamos receber, e às vezes dar, é que devemos ser “multimídias” – fazer várias coisas, ter diversas habilidades, usar muitos canais de comunicação, mudar de atividade continuamente. Os seres multimídia queixam-se, entretanto, de algumas dificuldades:

É necessário ser especialista e generalista ao mesmo tempo.


Lidar com o volume de informações que, se por um lado são o oxigênio da maioria das profissões, são intoxicantes em função do seu excesso.
Fazer várias coisas ao mesmo tempo com a mesma qualidade obtida em tarefas de dedicação exclusiva.
Multiplicar o tempo, que parece cada vez mais raro e que escorre entre nossos dedos.

O homem moderno tem de parar e pensar. Perceber que rupturas não são modernas, mas novas propostas, sim. O moderno sente o presente, olha para o futuro e utiliza o passado como ensinamento. O moderno não despreza o que a humanidade pensou, escreveu e produziu nos últimos seis milênios e sim adapta esse legado à atualidade.

De repente, você se descobre em um mundo com muita atividade, muita informação, muita exigência e pouco tempo. É uma combinação explosiva, cujo resultado pode ser representado por produtividade baixa e estresse alto.

A não ser – felizmente sempre há um “a não ser” – que você se organize e não apenas em termos de agenda, mas em termos de qualidade mental. A primeira lição: o cérebro trabalha melhor quanto mais focado estiver. Concentração é sinônimo de qualidade.

Como a luz da lanterna

A esse respeito tanto podemos consultar fisiologistas quanto filósofos. Os primeiros diriam que a competição de estímulos neurais promove a dispersão da recepção e o enfraquecimento de cada estímulo individualmente, provocando diminuição da capacidade receptiva. Quando isso acontece no nível da consciência, há um sensível prejuízo de percepção.

Já um filósofo oriental, como o hindu Paramahansa Yogananda, diria (como já disse): “Uma das principais causas de fracasso no mundo é a falta de concentração. A atenção é como a luz de uma lanterna: quando seus raios são espalhados em uma área vasta, sua habilidade de focalizar um único objeto se torna fraca, mas se focalizado em uma coisa de cada vez, torna-se poderosa. Grandes homens são os de concentração: eles investem todo o poder mental em uma coisa de cada vez”.

Com certeza você encontrou semelhança entre os dois pensamentos anteriores e certamente não acredita que seja apenas coincidência que um cientista ocidental e um filósofo oriental tenham chegado à mesma conclusão.

O homem do início do século XXI pensa mais aceleradamente que o do início do século XX. O volume de informações com as quais temos que lidar em nossa rotina diária está chegando perto do limite biológico do ser humano. Até parece ser uma boa coisa, pois o progresso gera informações ao mesmo tempo em que informações geram progresso, mas tem o seu preço.

Os especialistas falam em uma nova síndrome, a SPA, ou Síndrome do Pensamento Acelerado. Ela foi descrita pelo psiquiatra paulista Augusto Jorge Cury, autor de vários livros, entre eles Inteligência Multifocal e Você é Insubstituível – esse último citado hoje entre os dez mais vendidos por várias semanas.

Alguns sintomas: hiperaceleração do pensamento, déficit de concentração, déficit de memória, desgaste de energia no córtex cerebral, irritabilidade, flutuação emocional, bloqueio da criatividade, insatisfação existencial.

Só que o cérebro tem mais juízo que nós. Na vigência de situações estressantes, ele tem a capacidade de fazer alguns bloqueios com a finalidade de economizar energia, o que é um recurso biológico bastante utilizado em toda a natureza.

E os primeiros bloqueios são os da memória, da concentração e da criatividade. Por isso é tão difícil atender à demanda do mundo moderno, que deseja que sejamos multiinformados e criativos ao mesmo tempo. A criatividade depende de serenidade, enquanto a informação excessiva e múltipla aumenta o estresse e bloqueia a criatividade. Impasse!

O mundo das idéias

A memória é, em síntese, um suporte para a criatividade e não um mero depósito de informações. A memória é um conjunto de vários fenômenos, entre eles o fenômeno do autofluxo, que é quando o cérebro lê milhares de arquivos a partir dos quais produz dezenas de milhares de pensamentos diários, criando o chamado “mundo das idéias”, a que Platão já se referia.

Tudo isso é bom, porque, assim, o homem rompe sua solidão existencial, uma vez que é o senhor de seus próprios pensamentos. Só que o excesso de inputs e a falta de foco em cada informação individualmente estão provocando fissuras nesse sistema, gerando alguns perigos emocionais. O exercício da memória, em vez de promover entretenimento individual, está gerando terror emocional. Sinal vermelho!

Diz o autor de Inteligência Multifocal: “A inteligência humana é multifocal porque os processos que determinam sua construção são multifocais, como a leitura da memória, a construção das cadeias de pensamentos, as variáveis de interpretação e os fenômenos intrapsíquicos e sócio-educacionais. Esses processos co-interferem para construir o espetáculo indescritível da inteligência multifocal do homem”.

O pensamento é construído multifocalmente, mas isso está longe de querer significar que podemos nos focar em várias fontes de informação simultâneas, sejam elas externas, do mundo, ou internas, do nosso arquivo mental.

Ao contrário. Ao focalizarmos um aspecto do mundo interior ou do meio circundante de cada vez, facilitamos a construção do pensamento e liberamos a criatividade. Informações, interlocuções, projetos; podem e devem ser múltiplos, mas não superpostos.

Comendo todas as frutas

No filme Lendas da Vida, dirigido por Robert Redford, um jovem herói da primeira guerra, Rannulph Januh (Matt Damon), aceita participar de um campeonato de golfe com dois grandes profissionais da época. Contrata como caddy (o auxiliar que carrega os tacos e ajuda a decidir qual a melhor opção para cada jogada) um desconhecido chamado Bagger Venci (Will Smith).

Em uma das cenas mais emocionantes, o caddy insiste que o problema de Januh, que está perdendo a partida, é a falta de concentração, o que prejudica seu balanço. Após a preleção, o jogador encaminha-se para o local da tacada, observa o campo, com todas as árvores e pessoas que compõem a assistência.

No instante seguinte, como por mágica, as árvores e as pessoas desaparecem, e ele vê apenas o campo, e lá no fim a bandeira que sinaliza o buraco da vez. O resultado é espetacular, pois a jogada é perfeita e ele começa a virar o jogo.

Seja assim, caro leitor. Faça todos os buracos, um por vez. Não abra mão de nada no mundo; de nenhuma das frutas à disposição na árvore da vida, bem à nossa frente. Mas nunca tente apanhá-las nem saboreá-las todas ao mesmo tempo. Uma de cada vez, ou o engasgo será inevitável.


O físico nos informa que a mesma energia aplicada a dois trabalhos vai provocar sua dispersão.

O bioquímico diz que um receptor da membrana de uma célula não receberá dois estímulos químicos ao mesmo tempo.

O psicólogo sinaliza para o fato de que dois esforços mentais simultâneos provocarão ansiedade e estresse.

E o poeta, o que diz o poeta? Lembro-me de Ascenso Ferreira, em “Filosofia”:

Hora de comer – comer!
Hora de dormir – dormir!
Hora de vadiar – vadiar!
Hora de trabalhar?
– Pernas pro ar que ninguém é de ferro!

 

Texto de Eugênio Mussak  publicado na revista Super Interessante de Junho/2003

 

NE: como texto complementar, leia Como manter a organização mesmo sendo um bagunceiro incorrigível?

 

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